Crónica de uma cidade retro-futurista – 2.ª parte

Angra do Heroísmo, 31 de dezembro de 2035

No lugar onde funcionou, até ao final do século XX, a fábrica de lacticínios da ilha, estão instalados alguns empresários, reconhecidos como jovens empreendedores, que compram plástico, a baixo preço, às multinacionais chinesas que exploram os fundos marinhos dos nossos mares, para o venderem à incineradora para a manter a funcionar.

O aeroporto das Cinco Ribeiras, inaugurado na 2.ª década deste século para receber todas as companhias aéreas possíveis e imaginárias, de forma a não incomodar os interesses militares da base da NATO das Lajes, está deserto. Sem ligações inter-ilhas, pois por falta de viabilidade comercial, só se realizam voos entre os meses de maio e outubro, e são poucos os turistas que chegam a uma ilha que pouco ou nada de diferente tem para oferecer, pois até a natureza mirrou e pouca árvore sobrou.

Ao final do dia, numa cidade onde circulam inúmeros automóveis velhos e sujos que parece que funcionam a carvão, mas com lojas encerradas e abandonadas, por falta de clientes, e um centro comercial a meio-gás, em que as únicas lojas que ainda se encontram abertas ao público são aquelas que vendem produtos de luxo, comprados pelos agentes das multinacionais da prospeção de minérios, o angrense comum regressa a casa (quando a tem), depois de entregar ao «patrão do dia», o «trabalhómetro» (o aparelho que mede o trabalho braçal e intelectual para aferir o valor da «jorna» a receber). Alguns recebem em créditos para serem gastos em despesas de saúde, nas clinicas privadas, propriedade das mesmas multinacionais chinesas que exploram os mares, ou nas poucas escolas privadas da ilha. Outros há que recebem em géneros, o valor correspondente à sua «jorna», e outros recebem a garantia de continuarem a ter onde viver.

Neste ano de 2035, está garantido que nenhum patrão paga mais do que o trabalho realmente despendido pelo trabalhador, naquele que foi o sonho dos patrões mais visionários do final do século XX e início do século XXI. Tudo, graças ao «trabalhómetro».

A vida em 2035 não é fácil, mas também nunca o foi em qualquer outro tempo, resta a esperança no futuro, porque a política, em 2035, é o trabalho. Os sindicatos, depois substituídos pelas associações de colaboradores, desapareceram e aquilo dos parlamentos e dos governos é para quem pode, a partir da altura em que, por reivindicação popular, todos os cargos políticos deixaram de receber qualquer remuneração. E assim, à semelhança do que era comum até ao início do século XIX, os parlamentos são dominados por quem tem recursos e interesses económicos, que se acham representantes do povo que explora. Um povo que se resignou à sua condição e a este futuro de 2035 que começou ontem.