Por força da opinião publicada e referenciada, os transportes aéreos, seguidos de perto pelos transportes marítimos, têm sido alvo de inúmeras críticas, quer quanto às opções de investimento, quer quanto às opções estratégicas e ideológicas.
Custa-me constatar que os transportes coletivos terrestres e, inclusive, os transportes marítimos regulares de passageiros entre as ilhas do triângulo, se encontrem muito longe da relevância que, do meu ponto de vista, deveriam ter para a opinião publicada.
No último plenário da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, o BE apresentou duas propostas que procuravam tornar os transportes coletivos terrestres e os transportes marítimos regulares de passageiros mais atrativos para os utentes. No entanto, a maioria parlamentar do PS considerou que não se poderia fazer melhor. Por outras palavras, para o PS, pelo menos por enquanto, e apesar de estar contemplado no famigerado ‘plano integrado de transportes’, a intermodalidade entre transportes marítimos regulares de passageiros nas ilhas do triângulo tal como a combinação de passes para carreiras urbanas e interurbanas na Região é uma impossibilidade.
A maioria parlamentar do PS e o Secretário Regional do Turismo e Transportes insistem em acusar o BE de populismo e demagogia, por propor a redução do preço do passe social para metade, com o objetivo de contribuir para uma maior utilização dos transportes públicos em detrimento do automóvel particular. Insistir em tal acusação é prova de falta de vontade política para melhorar um serviço que poderia ser muito melhor. Aliás, a proposta apresentada nem é tão extremada, se tivermos em conta que a Agência Europeia de Ambiente recomenda a gratuitidade dos transportes coletivos terrestres.
A prova de que os transportes coletivos terrestres podem ser uma alternativa para os açorianos encontra-se no sucesso da implementação dos mini-buses (transportes urbanos), de tal forma que os seus utentes atribuíram alcunhas a tais transportes, inspiradas nos responsáveis políticos pela sua criação. Por exemplo, a gratuitidade de tais transportes, para o utente, numa fase inicial, em Angra do Heroísmo, bem como uma frequência muito regular destas carreiras foram fatores decisivos para o seu sucesso. Mas não deixa de ser curioso como se verificou uma redução na sua utilização, quando passou a ser cobrada uma tarifa, mesmo que de valor simbólico. E também não deixa de ser curiosa a atitude desfavorável, mais ou menos generalizada, provocada pela alegada sobrelotação do serviço, e que serviu, em parte, de justificação para ter sido introduzida tal tarifa.
Ainda mais curioso, é constatar que, fruto de uma campanha deliberada para entregar o serviço público do transporte aéreo ao setor privado, que nunca quis cumprir preços máximos e transporte de carga (duas condições das tais obrigações de serviço público), se tenha deturpado, por completo, o verdadeiro serviço público da companhia aérea pública da Região que se vê condenada a entregar e garantir clientes às companhias aéreas com quem concorre diretamente, as quais nada pagam por tal serviço, naquilo que agora designam por encaminhamentos gratuitos.
Afinal, para o Governo Regional e seu Secretário Regional do Turismo e Transportes, demagógico é propor medidas que deviriam ser da sua iniciativa, uma vez que promoveriam a melhoria das condições de vida nas nossas cidades, das pessoas e contribuiriam para diminuir a nossa fatura energética, tão nociva às nossas contas públicas. Ou nesta área estará o Governo Regional a proteger interesses privados?