Da demagogia à urgência

 

Ao fim de dois anos de terramoto social, sofrimento e pobreza, a dívida - em nome da qual tudo isto existe - continua a aumentar. Hoje, está acima de 124% do PIB e, nas previsões  de Vitor Gaspar, só lá para 2040, baixará para 60% do PIB.

Como sempre assumi, em nome do Bloco de Esquerda, esta dívida era e seria impagável.

Há dois anos atrás, defendi que  o único caminho era a reestruturação da dívida, com a  renegociação de prazos e de juros, respectiva auditoria e indexação do seu pagamento ao crescimento económico - tal como a Alemanha fez, após a 2ª Guerra Mundial -, a par da  profunda alteração das políticas europeias, quanto às dívidas soberanas.

Hoje, reafirmo que este caminho só é possível, através de uma posição de força do Governo português, pois a finança europeia e mundial só entendem  a linguagem da força.

Esta posição do Bloco de Esquerda foi alcunhada com os mais diversos epítetos, o menor dos quais foi de “irresponsabilidade”, perante inevitabilidade tão evidente. Lembram-se?

Por isso, não deixa de ser curioso ver, agora, o PS (pela voz de António José Seguro) defender a mutualização da dívida acima dos 60%, a renegociação de prazos e juros e alterações, nas políticas europeias, nomeadamente, no que respeita aos poderes do BCE.

É claro que os posicionamentos ainda são distintos, mas esta nova cara do PS não deixa de ser interessante.

Então a demagogia e a irresponsabilidade do Bloco, já não existe?!

Mas ainda há outras coisas que o PS tem de explicar: - Se a finança europeia e a Senhora Merkel não aceitarem as propostas de Seguro, qual é o plano seguinte?

Fará como Hollande que, na França, após a vitória eleitoral, não cumpriu uma única das propostas que assumiu em campanha?

Este é que é o problema. Seguro está obrigado a dizer, claramente, ao que vem e o que vai fazer, sob pena de tudo não passar de mera promessa eleitoral que se esvai, no dia seguinte às eleições.

Pode começar por explicar, preto no branco, o que vai fazer das leis do Trabalho, impostas pela maioria PSD/CDS. E que políticas vai implementar, quanto às reformas e pensões. E se vai ou não repor os apoios sociais sonegados.

A bem da política e a bem da democracia, exigem-se posições claras e não nebulosas.