De avião 'prá' cidade

A expressão popular “Não se começa a construir uma casa pelo telhado” serve, perfeitamente, para ilustrar o grande problema, de base, da política de transportes para a nossa Região.

A opinião pública muito debate, e ainda bem que o faz, os transportes aéreos, o que tem vindo a suscitar uma série de dúvidas sobre se a entrada das companhias aéreas de baixo custo resolverá todos os problemas de mobilidade e acessibilidade dos açorianos ou se a Região ficará bem servida com uma espécie de aeroporto central, ou ainda, se uma imaginada concorrência entre gateways será a solução para as expetativas dos açorianos.

Também muito se discute, trocam-se e confrontam-se argumentos para justificar aquele que será o melhor modelo para os transportes marítimos. Se deveremos depender do aluguer de navios de passageiros, se deveremos encomendar a construção de barcos próprios, e se deverão ser dois barcos ou só um barco.

O Plano Integrado de Transportes (PIT), da responsabilidade do Governo Regional, como a própria designação indica, contempla a integração das várias modalidades de transporte, sem contudo, melhorar, significativamente, aquela que é a base de qualquer política integrada de transportes, os transportes coletivos terrestres.

É estranho que não se discuta a qualidade e eficiência dos transportes coletivos terrestres, o que talvez constitua um sinal de conformismo absoluto, apesar do reduzido recurso a esta modalidade de transporte. Não deixa de ser irónico que a mobilidade terrestre seja dominada pelo automóvel particular, numa Região que se arroga de ser pioneira na implementação de projetos de sustentabilidade energética e ambiental.

Por um lado, as pessoas, influenciadas pelos protagonistas políticos, aprenderam, felizmente, a revindicar por mais e melhores transportes aéreos e marítimos, o que explica o porquê de quererem pagar menos de 100€ por uma passagem aérea entre os Açores e o continente. Por outro lado, aparentemente, consideram inevitável que se pague, por exemplo, 50€ de passe social mensal entre Biscoitos e Angra do Heroísmo ou que se pague 127€ de passe social marítimo entre a Horta e a Madalena do Pico.

Ao contrário do que muita gente pensa, os transportes coletivos terrestres não são uma modalidade exclusiva dos residentes. Na Região, e excluindo a ligação de autocarro entre o aeroporto de Ponta Delgada e o centro da cidade, que é muito recente, qualquer turista que chegue ao aeroporto das Lajes não tem ligação assegurada com a Praia da Vitória e com Angra do Heroísmo, o mesmo ocorre, no verão, entre o porto da Praia da Vitória e o centro da cidade.

O Bloco de Esquerda levou à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, duas iniciativas. Uma dessas iniciativas visava a implementação da articulação entre transportes coletivos terrestres e marítimos – nas designadas ilhas do triângulo –  a combinação entre as carreiras interurbanas e urbanas, um regime de redução de preços dos passes sociais para jovens trabalhadores com parcos rendimentos, pessoas portadores de deficiência e idosos, assim como um regime de isenção de pagamento para desempregados e beneficiários do RSI. A outra iniciativa propunha a redução do preço do passe social para metade, um incentivo para aumentar o número de utentes dos transportes coletivos terrestres, até porque o preço destes transportes, além de motivar o recurso ao automóvel particular, limita a aceitação de trabalho, dentro da própria ilha de residência, pois o custo associado ao transporte é proibitivo, sem considerarmos outros fatores, igualmente importantes, como os horários e a regularidade das carreiras.

Como tem sido, infelizmente, habitual, a maioria absoluta do PS reprovou tais iniciativas, apenas porque estão contempladas no PIT, mas também as reprovaria se não estivessem contempladas. E porque, se calhar, teima em c