De pensamento dominante a pensamento dominado

 

A utilização militar da base das Lajes, primeiro pelos ingleses e depois pelos norte-americanos, faz parte da realidade da ilha Terceira e quase ninguém se recorda do tempo em que os atuais terrenos, onde está instalada a base, estavam repletos de trigo.

A atual consciência coletiva terceirense não conceptualiza o seu espaço geográfico sem a presença norte-americana, mas também, e sobretudo, sem a utilização militar da base das Lajes. O espaço que antes era do trigo é agora do F-15, do F-16 e de outras tecnologias militares. O pensamento dominante não consegue desligar a presença norte-americana da utilização militar tal como não consegue distinguir outros interesses, que não o interesse militar, decorrentes da posição geoestratégica da ilha, quando a História da ilha e da Região está repleta de exemplos que comprovam o contrário.

A base militar foi e é tida como um 'bezerro dourado', adorado porque, algures no tempo, foi crucial para o desenvolvimento da ilha Terceira e inculcou, no pensamento dominante, um sentimento de gratidão eterna. Uma gratidão que deu origem a uma subserviência que, se calhar, mas só mesmo, se calhar, é causa da nossa estagnação.

Cedo, a consciência coletiva terceirense habituou-se a nunca questionar as desvantagens de termos na ilha uma base militar, pois fazê-lo colocaria em causa a nossa identidade. Por isso, o pensamento dominante aprendeu a justificar o injustificável.

Os praienses foram sulfatados com DDT e, mais cedo do que tarde, caiu no esquecimento, mais ou menos, coletivo.

Os aviões militares de última geração passaram por cá durante a guerra fria e armazenaram armas nucleares e, uns mais do que outros, acreditaram que os 'bunkers' serviam para armazenar armas benignas (e existem armas benignas?).

Mais recentemente, estalou o escândalo da contaminação do aquífero basal da Praia da Vitória. Fizeram-se os estudos e, mais uma vez, uns mais do que outros, concluíram que a base das Lajes estava na origem da contaminação e que a descontaminação, como é óbvio, seria da responsabilidade dos norte-americanos. Contudo, está a ser preparada uma Lei das Finanças Regionais que obriga o Estado Português a substituir os norte-americanos, na reparação dos danos ambientais decorrentes da utilização da base das Lajes.

Comprar produtos, é certo que cada vez menos diferentes e exóticos, nas lojas da base é um dos interesses de muitos terceirenses, mesmo quando sabemos que estão a prejudicar o comércio local e a contribuir para a economia paralela que assume dimensões preocupantes na Região e, porventura ainda de maior dimensão, na Terceira.

Não sei, se existem guerras justas, mas mesmo desconsiderando essa dúvida, o que constato é que para manter a importância militar geoestratégica da base da Lajes, o pensamento dominante cai na tentação de 'rezar' para que o mundo conheça um novo conflito com interesse para os norte-americanos e não se importa, antes pelo contrário, que a Terceira sirva de entreposto de apoio ao esforço de guerra, mesmo em conflitos que violam o Direito internacional como foi o caso da intervenção militar norte-americana no Iraque durante a administração norte-americana de George W. Bush.

O facto da ilha servir para alimentar conflitos armados é o que menos incomoda o pensamento dominante que se orgulha da escolha da base das Lajes para ser palco, daquela que ficou conhecida como a cimeira da guerra. O que importa é aparecer na CNN, mesmo que, simultaneamente, se procure promover a Região e a ilha Terceira como destinos de turismo de natureza imaculado, obviamente, sem DDT, sem armas nucleares, água contaminada e toda a parafernália bélica de última geração.

O pensamento dominante não aprende com os exemplos de outras ilhas da mesma Região como foram os casos da presença francesa nas Flores e norte-americana em Santa Maria e continua a acreditar numa fuga para a frente. Entretanto, a base das Lajes continua a 'destruir' emprego, em vez de o criar, o que é lamentável, quando poderíamos rentabilizar a tal posição geoestratégica de outras formas que criariam mais e melhor emprego e que não dependem de fins militares, com ou sem norte-americanos.

As atuais infraestruturas poderiam ser convertidas com o intuito de reforçar as valências de apoio ao serviço de busca e salvamento e de apoio técnico à aviação civil e até para formação de pilotos, criando sinergias com a base de Santa Maria. Implausível? Implausível será continuarmos a assistir a despedimentos que terão um impacto socioeconómico desastroso para a ilha. Até para as empresas locais - algumas tiveram na base das Lajes, a razão para a sua constituição e consolidação - esta é, entre outras, uma alternativa civil que lhes permitiria florescer.

Se as alternativas são assim tão implausíveis, só restará ao poder dominante obter o tal poder negocial para a ilha e para o Estado Português, mas quando a impossibilidade de sancionar os norte-americanos é a premissa-mor, então é certo que perderá qualquer margem de manobra e não terá outra alternativa senão a subserviência e, se esse é o caminho, então mais valerá admitir a cedência da soberania daquele espaço (incluindo, parte do espaço aéreo).

Enfim, o pensamento dominante passará a pensamento dominado. Assim, e na hipotética eventualidade de um reforço do contingente militar norte-americano, o pensamento dominado sossegaria e voltaríamos ao 'business as usual' ou à subserviência habitual.