A proposta da Representação Parlamentar do BE/Açores para introduzir um sistema de fornecimento de refeições quentes durante as férias escolares e interrupções letivas esteve, como não poderia deixar de estar, aberta a todas as alterações que pudessem melhorar o seu conteúdo e abrangência. No entanto, não para a melhorar, mas para limitar a sua abrangência, o PS/Açores considerou que a proposta teria de sofrer algumas alterações para a viabilizar, o que originou um dilema, mais frequente, em contextos parlamentares em que impera uma maioria absoluta: ou insistíamos em propor a disponibilização de refeições quentes todos os dias, inclusive aos fins-de-semana ou acedíamos às alterações propostas pelo PS/Açores.
Não aceitar as propostas de alteração do PS/Açores resultaria num «chumbo» e nenhuma criança teria acesso a refeições quentes durante o período de férias e nas interrupções letivas, quer em dias úteis, quer aos fins-de-semana. Ao aceitarmos a proposta do PS/Açores, algumas crianças teriam acesso às refeições quentes, mas só aos dias de semana, durante as férias e interrupções letivas. Longe de ser o ideal, foi o possível perante uma maioria absoluta que quer, pode e manda.
É óbvio que a solução para a pobreza e para a miséria não está na disponibilização de refeições quentes durante as interrupções letivas e férias escolares (mas contribuiu para a sua atenuação), assim como não está, e segundo informações irresponsáveis atiradas para o ar, em ter «magotes» de assistentes sociais (o que está longe de ser verdade). A solução é política!
Está mais do que provado, e também aqui na Região, que uma política de baixos salários não cria emprego e não combate a pobreza. Portanto, não faz qualquer sentido, termos o Presidente do Governo Regional que em prefácios de livros nos assegura que o primeiro passo para combater o desemprego, a precariedade e a pobreza está no aumento do salário mínimo, mas que ao ter a oportunidade, competência e quando é confrontado com propostas nesse sentido, se recusa a fazê-lo, só porque na República ainda não o fizeram. Portanto, o que falta em coragem política, sobra em força parlamentar exercida por uma maioria absoluta arrogante e imatura.
Compara-se o investimento que poderia ser feito em refeições quentes durante as férias escolares com o investimento feito nas refeições dos reclusos nas cadeias ou se teima em ser mais forte com os mais fracos, ao sugerir que até os preços (40 cêntimos) das refeições quentes sejam deduzidos aos parcos apoios sociais que são o complemento do parco salário ou quinhão (no caso dos pescadores), das pensões de miséria ou até a única forma de subsistência quando já nem se recebe o subsídio de desemprego.
Enquanto se compara o incomparável e se penaliza quem já há muito está penalizado, os «negócios para amigos», na Região (não é um defeito exclusivo do continente), são feitos entre os «pingos da chuva» e sem serem alvo de qualquer crítica. São as rendas e os negócios garantidos no setor das energias renováveis, são as escolas privadas que cobram propinas comparticipadas por dinheiros públicos que vão abrindo pela Região e o dinheiro público que se desperdiça, aos milhões, na saúde, como por exemplo, na construção de dois bunkers em dois hospitais na Região para instalação do equipamento para radioterapia, quando só um deles o receberá, efetivamente.
É certo que estes «negócios para amigos» não são ilegais, mas são fruto de opções políticas tomadas pelo PS/Açores com a conivência do PSD e do CDS. Razão para podermos concluir que o futuro da política nos Açores não está na redução do número de deputados, mas sim no exercício de políticas diferentes e corajosas que coloquem os açorianos e açorianas no seu centro e não só alguns «amigos» que se vão governando sempre, por entre os meandros das maiorias absolutas e das alternâncias entre PS e PSD/CDS.