Deputado António Ventura à procura da social-democracia

O deputado António Ventura, em artigo de opinião de sua autoria, denuncia aquilo que presume ser a prova inequívoca de que, afinal o BE está feito com os interesses obscuros da alta finança ou que claudicou perante a força dos ‘mercados’. Refiro-me à acusação de que o BE chumbou a proposta do PSD, na Assembleia da República, para a realização de uma auditoria externa ao imbróglio do BANIF. A tal acusação, interessa colocar algumas questões: não cumprirá a comissão de inquérito, na Assembleia da República, o mesmo objetivo? Com uma auditoria externa ao BANIF não se estará a desviar a atenção dos trabalhos e conclusões da comissão parlamentar? E já agora, quem beneficiaria deste desvio de atenção?

Uma comissão de inquérito da Assembleia da República tem um outro objetivo que uma auditoria externa não tem, pois, para além de considerar a análise mais técnica, tal como uma auditoria externa o permite, pode (e deve) apurar responsabilidades políticas. Quererá o PSD, ao propor uma auditoria externa ao BANIF, desconsiderar o trabalho feito pelos deputados, inclusive os seus, e desviar a atenção da opinião pública quanto ao apuramento das responsabilidades políticas de mais um caso em que o dinheiro dos contribuintes serviu para salvar um banco que continua nas mãos de privados. Terá o PSD, depois do sucesso que foi a comissão de inquérito ao BES, receio da acutilância dos deputados?

O deputado António Ventura ainda aproveitou para acusar o BE de não ter viabilizado um aumento das pensões mínimas, sociais e rurais, num sinal de um alegado incumprimento de um conjunto de promessas eleitorais, na tentativa de recolocar o PSD, sempre quando na oposição, como o partido social-democrata. No entanto, oculta que, feitas as contas, proceder-se-á ao descongelamento das pensões até aos 628€ (convém não esquecer que tal congelamento foi da responsabilidade do PSD e do CDS) e que, no caso das pensões mínimas, estas serão aditivadas com o complemento solidário para idosos, cujos critérios foram alterados pelo anterior governo PSD/CDS com o intuito de limitar o seu acesso, o que fez com que 70 mil desses pensionistas deixassem de o receber. Somando tudo, poder-se-á concluir que não se trata de um aumento de 1€, mas da reposição de uma prestação social muito importante no combate à pobreza entre idosos, no valor de umas dezenas de euros.

Compreendo que António Ventura queira apresentar trabalho ao seu eleitorado, mas parece-me que terá de ser mais perspicaz, até porque os eleitores estão cada vez mais esclarecidos e cada vez menos crédulos, como se o voto fosse decidido à semelhança da escolha do clube de futebol para apoiar durante uma vida inteira (quer o clube jogue bem ou mal). Mas, tal como fiz para o deputado Artur Lima, se o deputado António Ventura quiser, posso dar-lhe umas dicas sobre aspetos deste governo da República que estão muito longe de garantir a recuperação de direitos e de rendimentos para o trabalho, em vez de termos uma política dedicada a servir a voracidade dos mercados. Olhe, e até lhe poderia dar algum jeito na preparação do próximo congresso do PSD, com o lema ‘Social-democracia, sempre’.