Desafios para a Autonomia

O discurso de Vasco Cordeiro proferido no dia da Região pode, se não for consequente, ser considerado «verbo de encher». Fazer depender o futuro da Autonomia da extinção do cargo do Representante da República e de outra medida de caráter simbólico é, claramente, insuficiente.

O futuro da Região encontra-se na vontade e coragem política para ousar uma mudança de paradigma para o seu desenvolvimento. Se essa for a prioridade, então tudo o que for de caráter simbólico virá naturalmente.

Essa mudança está no nosso Mar, nas riquezas que encerra, e que não se limitam ao produto da pesca. Os nossos fundos marinhos são um manancial de minérios com aplicações bioquímicas extremamente valorizáveis (estima-se que só a exploração de cobalto poderia render 200 milhões de euros por ano), para aproveitar essas riquezas há que definir, de uma vez por todas, a gestão partilhada do nosso mar, caso contrário, e se tudo continuar neste ‘limbo’, serão as grandes multinacionais que levarão toda a riqueza, considerando que o Governo da República (PSD e CDS) já fez questão de privatizar o nosso subsolo oceânico. Mas não basta termos competências clarificadas sobre a gestão daquilo que é nosso, será também necessário investirmos, a sério, em conhecimento científico. Por isso, o BE tem vindo a defender a criação de um Centro Público de Investigação Internacional que produza conhecimento científico nas áreas das Ciências do Mar, Vulcanologia e alterações climáticas. Só assim teremos capacidade para fiscalizar e tirar benefício da exploração sustentável daquilo que é nosso.

Não vale a pena baixar os braços, num sinal de resignação, por pensarmos que tal ambição não será concretizável. A vontade e ambição política dever-se-ão traduzir na obrigação de dar continuidade ao conhecimento científico produzido em ciências do Mar, pelo Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores, uma opção política compensada se servir de base para tornar possível aquilo que muitos consideram impossível.

A Terceira pode ser uma referência mundial, no que diz respeito ao apoio logístico à aviação comercial, se houver a coragem política para utilizar a base das Lajes em prol da criação de riqueza que beneficie os terceirenses e os açorianos em geral. Continuar a valorizar a Terceira consoante interesses alheios, nomeadamente os interesses militares norte-americanos, é deplorável e um atestado de menoridade e de auto-desvalorização atroz.

A utilização civil e comercial, para ser financeiramente significativa para a ilha e para a Região, não se compagina com infraestruturas civis com utilização militar. Bem sabemos que a fantasia de termos uma aeroporto civil com utilização militar é útil para quem quer ‘vender’ à opinião pública uma possível solução para a redução dos efetivos civis na base das Lajes sem incomodar os atuais interesses norte-americanos, mas a solução séria implicará sempre a denúncia do atual Acordo de Cooperação e Defesa para desimpedir o caminho a investimentos que trarão maior prosperidade à ilha Terceira e à Região.

Estas são alternativas que entram claramente em rotura com aquele que tem sido o status quo do modelo de desenvolvimento da Região, que tem impedido o nosso desenvolvimento e contribuído para o nosso atraso, para continuar a alimentar os interesses de uns poucos e os caprichos de outros tantos.

É verdade que a mudança não se fará de «hoje para amanhã», mas pode começar já amanhã. Basta crer! Se assim não for, então a Autonomia não será mais do que um instrumento para administrar a gestão da pobreza e os discursos comemorativos tornar-se-ão em «verbo de encher».