No período revolucionário do pós-25 de abril de 74, durante o qual muito se discutia e se debatia. E numa época em que as pessoas cultivavam e prezavam o confronto ideológico até de uma forma, por vezes, demasiado passional, característica de quem, pela primeira vez, tem liberdade para expressar o que pensa e anseia para o bem comum, nos Açores, todo esse ‘clima’ politizado assumiu características muito próprias, não fosse a nossa Região dotada de particularidades e idiossincrasias resultantes de uma história e de vivências influenciadas pela nossa geografia.
Nesse período conturbado, um famigerado dirigente do antigo COPCON veio à nossa ilha, mas, segundo se conta, não conseguiu desembarcar, devido à força inspirada pelo preconceito, (ainda em vigor apesar de atenuado) - do comunista perverso que «come criancinhas ao pequeno-almoço» (no sentido mais literal possível) - de um grupo de lavradores, quiçá com receio de uma reforma agrária que lhes ameaçaria o sustento da pouca terra que possuía, comparativamente, aos grandes latifundiários alentejanos. Bem, na verdade, ficámos sem saber, realmente, o que viria aquele dirigente do COPCON fazer à nossa ilha, pois ele nem teve oportunidade de dizer o que quer que fosse, nem sabemos o que esse grupo de lavradores ganhou com tal reação.
Passados quase 40 anos, um primeiro-ministro, apesar de democraticamente eleito, mas que empobreceu os portugueses e os açorianos e açorianas desembarcou, sem qualquer reação ou manifestação de lavradores, só possível porque alguns desconhecem e outros preferem esquecer, momentaneamente, que este é o primeiro-ministro responsável por um governo que não teve em consideração a adequação do regime contributivo para as pequenas explorações agrícolas e que tem participado numa campanha que pretende convencer os lavradores de que o futuro Tratado Transatlântico, negociado em segredo entre a União Europeia e os EUA, de cariz ultra-neo-liberal será um belo substituto das quotas leiteiras.
Se o neo-liberalismo é que nos trouxe a esta crise, este é o primeiro-ministro que receita o neo-liberalismo para o país e, consequentemente, para a nossa Região. Desembarcou, foi adulado e bajulado por alguns acólitos, porque a fé na auto-regulação dos mercados é que nos salvará, até porque parece que um dos motivos para a sua vinda à Região, prende-se com o novo modelo de transporte aéreo de passageiros, um modelo também assente na liberalização de um serviço público que aparentemente não funcionava, por estar sujeito a obrigações de serviço público. Um contra-senso? Maior contra-senso, só mesmo o desembarque na nossa ilha do primeiro-ministro que «come o pequeno-almoço de muitas crianças».