Apesar de já ter experimentado, há alguns anos, viajar numa companhia aérea 'low-cost', na semana passada fiz a minha estreia, numa dessas companhias, numa viajem entre Ponta Delgada e o Porto, com direito ao respectivo encaminhamento, mais fácil de o garantir do que uma factura na tal 'low-cost'.
Optei, desta vez, pela 'low-cost', não devido ao reduzido custo do bilhete, mas porque me vi obrigado, à semelhança da generalidade dos açorianos, a escolher entre o 'muito caro' e o 'caro'. Por outras palavras, e de forma mais concreta, entre pagar 600€ ou 260€.
Enquanto aguardava o embarque na 'low-cost' - já com o bilhete impresso em casa, para não ter de pagar uma despesa extra por fazer o 'check in' ao balcão e sem bagagem de porão, pela qual teria de pagar mais um extra – recordei-me dos protestos de quem viajava na SATA perante os constrangimentos no peso da bagagem, no período pré entrada das companhias aéreas 'low-cost' naquelas que eram conhecidas como as rotas sujeitas às obrigações de serviço público. O que dirão aquele(a)s que, outrora, apontavam para as 'low cost' como a solução para todos os problemas, mas que agora têm de pagar um extra, sem direito a reembolso, para transportarem bagagem de porão que é, rigorosamente, pesada, bem como a bagagem de mão que é medida na porta de embarque se a sua dimensão suscitar dúvidas?
Poderíamos pensar que são desvantagens compensadas pelos preços reduzidos praticados pelas companhias aéreas 'low-cost'. Mas desde quando é que 260€ é um preço 'low-cost'? De certeza que não seria sequer considerado um preço decente, no pré 'low-cost', se a SATA ou a TAP cobrasse semelhante preço. Os arautos do liberalismo económico, que acreditam numa espécie de lei da natureza que dita a maior redução de preços ao consumidor quanto maior for o número de agentes concorrentes no mercado, defendiam que com a entrada das companhias aéreas 'low-cost', os preços cairiam a pique. E, de facto, os preços caíram a pique, mas só quando ninguém está interessado em viajar.
Enquanto caminhava entre o terminal e o avião (sem direito a autocarro em Ponta Delgada e sem direito a manga, nem autocarro no Porto) lia a noticia que dava conta que o CEO de uma das companhias aéreas 'low-cost' pretende começar a utilizar o aeroporto do Montijo, em vez do aeroporto da Portela, com o intuito de contornar o limite de número de passageiros movimentado na Portela e para poupar uns cobres na logística daquele que será um aeroporto secundário. Foi então que me recordei das queixas que jorraram quando os voos entre Lisboa e os Açores foram transferidos para o terminal 2 da Portela, naquele que ficou conhecido como o barracão para onde atiraram os açorianos. Imaginem o embaraço de Duarte Freitas e Vitor Fraga quando anunciarem a autoria da iniciativa de terem voos 'low-cost' entre a Terceira (incluindo Ponta Delgada) e o... Montijo? Razão para que Duarte Freitas nunca mencione a exigência das companhias aéreas 'low-cost' em voar a partir do Montijo e para que alguma comunicação social regional se apresse a atribuir a culpa de toda esta trapalhada liberalizadora ao Estado, por uma alegada falta de certificação civil do aeroporto das Lajes. É decerto um obstáculo, mas não me parece que será o maior, até porque nem é referido pelo CEO da companhia aérea 'low cost' que pretendia estabelecer uma rota entre a Terceira e Lisboa, mas é sempre mais um expediente para culpar o Estado, em vez dos privados, e para fugir a mais uma evidência de que o privado só cumpre um serviço público quando coincide com o seu próprio interesse.
Já a bordo, se pretendesse comer uma sandes teria de pagar um extra, mesmo que a sandes fosse só um pedacinho melhor (e maior) do que a sandes incluída na refeição da SATA. As sandes que eram anunciadas e vendidas por tripulantes de bordo que também limpam o avião, logo que os passageiros desembarcam, mas que recebem somente pelas horas de voo, num exemplo daquela que seria a concretização do sonho de um grande empresário, cá do burgo, que defende que os trabalhadores só devem receber pelo tempo efectivo de trabalho, quiçá contabilizado à hora e à jorna, ao passo que os apoios financeiros públicos atribuídos aos empresários devem ser à larga e não por cada bloco e viga erguida. Enfim, a lógica dos tais empresários-modelo que sempre escarraram na concorrência e buscam o santo monopólio que lhes garanta a rendimento máximo garantido.
São companhias aéreas reconhecidas por oprimirem qualquer iniciativa que os seus trabalhadores possam ter para se organizarem e reivindicarem direitos laborais. Mas, afinal, quem se importa com isso, num mundo em crise, devido à desregulação, mas que abraça, cada vez mais, a desregulação? O que importa é ter passagens baratas (ou talvez não...).
Chegado ao destino, concluí (sem qualquer ironia) que ainda bem que reclamámos e continuamos a reclamar sempre por um melhor serviço na companhia aérea que é de todos nós, pois só com uma exigência firme podemos garantir a sua viabilização e qualidade num mercado liberalizado e com uma bitola de qualidade cada vez mais reduzida. Quanto às outras companhias privadas (de baixo custo ou não) só podemos esperar que prossigam o seu negócio, sem nunca deixarmos de exigir o cumprimento da legalidade em termos de fiscalidade e legalidade (incluindo laboral), e que podemos, se não formos ingénuos, retirar proveito da sua presença na nossa Região, se soubermos valorizar as infraestruturas que temos e a nosso posição geo-estratégica para algo mais do que viver na ilusão de termos passagens baratas e uma plataforma para guerra.