Dois programas, um logro

 

Os/as Açorianos/as que acompanharam o debate, no Parlamento Regional, do Programa do Governo, presidido por Vasco Cordeiro, certamente notaram o inédito deste momento.

Quer alguns membros do Governo, quer os/ deputados/as da maioria que intervieram no debate, todos/as realçaram que o programa para a governação era igual ao que o Partido Socialista tinha apresentado ao eleitorado. Fizeram-no, um/a após outro/a, de forma incisiva e até mesmo entusiástica.

Claro que os/as menos atentos dirão que, assim sendo, nos Açores, teríamos um Partido que faz, sem tirar nem pôr, aquilo que prometeu.

Peço desculpa, mas não acompanho tanta euforia, admitindo, embora, que a similitude, entre os dois programas, poderia ser a prova de uma notável fidelidade aos compromissos assumidos.

Acontece, porém, que a aparente mais-valia desta ressonância acaba por se transformar na sua mais criticável fragilidade: é que a tão elogiada similitude, entre o Programa de Governo e o Programa Eleitoral do PS se resume, afinal, ao vasto rol de desejos, intenções e preocupações que ambos expressam, sem que, em nenhum deles, se consiga encontrar uma única medida concreta, quantificável, planeada e calendarizada com que o Governo Regional se comprometa.

E se já é mau aquilo que não se consegue vislumbrar, em 203 páginas, muito pior é aquilo que, objectivamente, lá está, nos dois documentos mas que, afinal, ou não é para cumprir, ou não é para levar a sério. Refiro-me, por um lado, à promessa de usar as prorrogativas autonómicas, na defesa dos Açores e contra as medidas de austeridade criminosas impostas por Vítor Gaspar. E, por outro lado, à reiterada afirmação de que o Memorando de Entendimento, assinado entre a Região e Lisboa, nada tem de gravoso ou de limitador para o pleno exercício da nossa Autonomia. Se tudo isto fosse verdade, a primeira medida deste Governo teria que ser (porque poderia ser) a devolução dos subsídios confiscados aos/às trabalhadores/as, em nome da dinamização da economia regional, da legalidade e do respeito por quem trabalha. Porque não será assim, o ‘copy-paste’ é um logro.