Em tempos, só porque outras ilhas, até de menor dimensão, tinham uma marina e apesar da Praia da Vitória também estar dotada de uma, Angra do Heroísmo também teve de ter um exemplar, daquilo que foi tido como uma espécie de paradigma do desenvolvimento futuro da ilha. Passados quase 20 anos, depois da construção da marina de Angra do Heroísmo, as vozes que tentaram abafar quem questionou tal investimento, tentam esquecer as expetativas que foram criadas e defraudadas.
Em tempos, a Terceira tinha uma escassa oferta hoteleira. Aliás, nem se discutia o modelo de turismo que pretendíamos para a Região e para a ilha, mas lá se construíram grandes hotéis. À época, quem questionou o impacto paisagístico do hotel que se implantou no Fanal foi, duramente, criticado e era tido como um opositor ao desenvolvimento da ilha, pois com a construção de grandes hotéis é que, agora, a Terceira conheceria o desenvolvimento! Passados 15 anos, temos hotéis vazios e o Fanal continua a ser uma área de Angra do Heroísmo por resolver.
Em tempos, o futuro do desenvolvimento da ilha estava na construção de grandes infraestruturas, mesmo desconhecendo qualquer relação custo/beneficio. Construiu-se por tudo e por nada, sem olhar a custos, incluindo ambientais. Mais uma vez, criticou-se, quem teve a coragem de denunciar a exploração desenfreada de inertes. Afinal, o que são inertes? Nada de especial, quando comparado com o investimento na construção. Valia tudo, até a exploração ilegal, transformando a paisagem da ilha. Valeu a pena? O que teremos para mostrar aos turistas que nos visitarem? Paisagem terraplanada?
Em tempos, ninguém queria ouvir falar em alternativas à utilização militar da base das Lajes. Quem ousava colocar em causa a presença militar com fins belicistas, estaria a prejudicar a economia da ilha, pois a base era responsável por muito emprego direto e indireto que dinamizava a economia local. Em troca, só teríamos de ‘fechar os olhos’ ao que os nossos pretensos inquilinos faziam: utilização massiva de DDT, armazenamento de armas nucleares, contaminação de aquíferos, cimeiras para organizar saques de guerra, etc. O que ganhámos com essa atitude? Extrema dependência do PIB local relativamente a uma presença militar norte-americana que, afinal, são mais donos daquele espaço do que inquilinos.
Em tempos, a quimera do desenvolvimento da ilha dependia da instalação de um cais e de um terminal para cruzeiros em plena baía de Angra do Heroísmo. Não interessava ter estudos económicos sobre a viabilidade de tal investimento, nem se poderia estar enquadrado num plano integrado de transportes (a sério) e muito menos, se contribuiria para descaracterizar, ainda mais, a baía de Angra. Ora, quem, politicamente, tinha como único objetivo ganhar votos e garantir maiorias absolutas, esta foi uma quimera útil. Criou expetativas e fidelizou votos. Todavia, desta vez, pelo menos, não vamos acabar com mais um «monstro» na cidade, a somar a muitos outros «monstros» que deveriam merecer outra atenção, como por exemplo: a zona dos celeiros, a antiga fábrica dos lacticínios, a antiga pensão ‘Lisboa’ no Páteo da Alfandega, a zona do Fanal, etc.
Chegará o tempo em que, por artes mágicas, o lixo desaparecerá na ilha Terceira e no restante arquipélago, mas cedo perceberão que essa magia, não será mais do que o ilusionismo que transformará o lixo em resíduos que terão de ir para aterro, com a agravante e novidade, de ser necessário um aterro especial para resíduos perigosos e tudo o resto andará, por aí, no ar que respiramos. Será então, que a Terceira, depois de gastar, mais ou menos, 40 milhões de euros, numa incineradora, tornar-se-á, finalmente, numa capital. A capital… do lixo!E agora? Agora, há que mudar o modo de pensar o desenvolvimento da ilha e da Região. Um bom princípio seria debater, de forma informada, sem dogmatismos, o que não é sinónimo de desprovimento de ideias (ideologia). É óbvio, que a qualidade desse debate está, ao contrário, do que nos querem fazer crer, na diversidade e, porque não, na divergência de ideias.