Enredo vergonhoso

As intempéries de Março de 2013 causaram prejuízos avultados, em freguesias das ilhas de S. Miguel e da Terceira e, lamentavelmente, a morte de três pessoas, no Faial da Terra.

A única acção política condizente com um Governo da República decente (para além dos hipócritas lamentos televisivos) seria colocar, imediatamente, um membro do seu Governo, em articulação com o Governo Regional e Autarquias dos Açores, no sentido de estudar todas as formas de apoio necessárias, às populações e à Região.

Mas, como está mais do que demonstrado, não é a decência que caracteriza o Governo PSD/CDS! Quando se trata de acudir ao povo português, a sua acção rápida, a sua solidariedade e a sua preocupação, fenecem. Os referidos valores só existem para acudir aos problemas da alta finança...

Dos Açores e das suas populações, lavaram, olimpicamente, as suas mãos e nem se mexeram, ao contrário do que aconteceu (e bem!), aquando dos incêndios, na Madeira.

Esta duplicidade de critérios é, verdadeiramente, uma vergonha! Não há razões que a expliquem e mesmo as que possamos aventar são uma vergonha redobrada. O governo, na Madeira, é PSD, ou seja, o lobby PSD/M, junto do Governo da República, é mais influente e tem mais peso do que o lobby açoriano. Se isto for, de facto, assim, estamos no grau zero da política, na mais profunda baixeza a que um governo pode chegar.

Mas contra factos só há argumentos: - o Governo PSD/CDS negou solidariedade aos/às Açorianos/as, quando dela mais precisavam.

E nem precisou de o fazer por sua própria iniciativa - como seria, constitucionalmente, expectável -, nem mesmo depois de instado por pedidos de auxílio, pelos órgãos de governo próprio da Região. Bastou-lhe confiar no veto de gaveta perpetrado, pela maioria parlamentar, na Assembleia da República, a uma anteproposta de lei aprovada (por unanimidade!), na Assembleia Legislativa dos Açores, a qual almejava uma forma possível de apoio à Região. E foi preciso o Parlamento dos Açores agendar, novamente, o referido diploma, para o mesmo ir a votos, passados 1 ano e três meses da sua entrada na Assembleia da República.

O resultado já todos/as sabemos. Contudo, importa reter alguns factos deste enredo.

Foi triste - para não adjectivar da forma merecida - a actuação dos/as eleitos/as do PSD pelos Açores, os quais, para salvarem a face do Governo da República, se meteram por atalhos jurídicos tentando, mais uma vez, adiar a resolução do problema e atirando, para trás das costas, os legítimos interesses dos Açores.

Na mesma linha seguiu o CDS, através de uma intervenção carregada de lógica tecnocrática, mas que visava o mesmo objectivo: - lavar a face do Governo. Estranhamente (ou talvez não), esta vergonhosa prestação tem a total cobertura do CDS/Açores, quando este afirma que o seu partido, na Assembleia da República, é autónomo e obrigado a ser solidário com o PSD. Ou seja, para o CDS/Açores, é mais importante o reconhecimento da solidariedade que é devida, entre pares, no Governo República, do que a solidariedade recusada aos Açores!

Este caso vergonhoso mostra, de forma clara, que as reiteradas proclamações feitas, na Região - e, particularmente, na sua Assembleia Legislativa - de que “primeiro, estão os Açores”, não passam de palavras ocas, pois bastam as ordens do poder central, para essas proclamações se diluírem, como água em “pana” rota.