Era uma vez um país…

Era uma vez um país que estava encostado à janela a dizer: “Quem quer? Quem quer? Quem quer vir cá viver?”.

Nesse país, onde os brandos costumes eram devidamente reproduzidos ano após ano, havia um sonho. Esse sonho perdera-se quando, lá para os lados da capital, alguém, um dia, se lembrou de considerar que seria mesmo muito bom que o país mandasse emigrar as suas melhores mentes.

Esse país ficou pobre. Esse país até julga-se rico, mas esse país vive num mundo de fantasia. Uma fantasia feita de estatística, onde tudo é perfeito. Um mundo onde os cálculos batem sempre certo. Nesse mundo, não é importante que a sabedoria guie a vida, ou que o humanismo possa cumprir a sua nobre missão na política.

Nesse país tudo é feito para que os cálculos batam certo. É muito fácil corromper as estatísticas: soma-se aqui, subtrai-se ali, e assim, ao sabor das estatísticas positivamente dispostas a favor da corrupção, se vai alimentando um cancro que vai se propagando no seio da sociedade: a desconfiança sobre a administração pública.

Nesse país tornou-se ‘pecado’ ser sábio. Nesse país tornou-se normal o chico-espertismo; tornou-se doutrina que se qualifiquem os chicos-espertos. Nesse país os chicos-espertos foram, lentamente, roubando a dignidade às pessoas. Nesse país (seria uma utopia?) achou-se por bem fazer uma espécie de ‘caça às bruxas’ aos que dedicam as suas energias e a sua vida à sabedoria de ensinar as gerações futuras o que é o valor do humanismo na sociedade.

Nesse país o cancro da estatística alastrou-se (é ver, ano após ano, as listas dos rankings das escolas). Ano após ano, a educação desse país tem caído em desgraça. E o alastramento da doença é tal que os sábios que ficaram, estão tão doentes e cansados, que já não conseguem ensinar o humanismo. Nesse país os sábios têm que evitar chumbar quem não se esforça, porque, afinal, o importante mesmo não é o humanismo, mas o chico-espertismo. Esse cancro que se chama corrupção começa, afinal, nos próprio sistema de educação. Esse cancro chamado corrupção não olha a quem ataca. Esse cancro, quando está devidamente entronizado pela entidade capital, corrompe até o mais sábio dos sábios. É que o sábio, para poder viver, tem de comer, e para comer, tem que ter capital (tão paradoxal esta vida: a sabedoria, refém do capital… já na Grécia clássica, Sócrates foi condenado à morte por ensinar a sabedoria, acusado de corromper as mentes jovens). Mas regressando à narrativa desse país.

Acontece que nesse país, alguém, enfim, lá para os lados da capital, se lembrou de perceber que o cancro já ia forte. Alguém percebeu que o sistema de ensino tem falta de sábios, por isso como panaceia para tentar travar o cancro (como se fosse uma dose de quimioterapia), decidiu-se que se havia de permitir que licenciados, sem sequer terem formação em pedagogia, pudessem, também eles, vir a ensinar (sem sequer serem sábios?).

Pois é aqui que entra o sentido paradoxal desta existência: como é possível colocar pessoas a ensinar, sem que estas tenham o mínimo de formação em pedagogia? Neste país (já moribundo de tanto tratamento de choque) chegou-se ao ridículo ponto de ter que ser necessário suprir a escassez de sábios, com ‘sábios de faz de conta’. Chegou-se a um ponto em que, ao invés de se cativar para a vocação de ensinar, temos que, agora, injetar pedagogia nas veias desse país, sem se saber se o remédio trará resultados. Como este país é um país de brandos costumes e de uma fé inabalável nas estatísticas, pode ser que a panaceia resulte, e que haja um milagre de descobrir bons sábios que queiram tomar nas mãos esta nobre missão de ensinar.

O paradoxo desta existência de ser sábio é que só se sabe que as incertezas conduzem o caminho da sabedoria.

Qual será o resultado desta panaceia? Surgirão sábios que nem tinham a noção que o eram? Irá a panaceia revelar-se veneno? Irá o sistema de ensino ficar ainda pior? Viveremos sempre nesta incerteza porque não há quem tenha capacidade de ver o futuro a longo prazo? Será que vale tudo em nome dos números? Estará este triste país condenado a acreditar em milagres por toda a sua eternidade? Ah sabedoria… és tão mal tratada nesta tua existência!