Admito, desde já, a minha mais completa e irrevogável desilusão com uma geringonça a que se chama (ainda!) União Europeia (UE). Esta geringonça transformou-se, face à nossa mais idiota indiferença, num antro, dentro do qual se pratica o mais radical darwinismo económico, social e político. Ou seja, a única lei que, verdadeiramente, nela impera, é a lei do mais forte, é a lei da selva, é o salve-se quem puder e quem não puder… temos pena!
E quem é que pode? Obviamente, os mais poderosos, os mais ricos, tanto individual, quanto colectivamente falando. Tem sido assim, com a forma como a UE tem gerido a crise das dívidas soberanas dos países mais pobres. E é, vergonhosamente, assim, com o tipo de políticas que tem engendrado para enfrentar a crise dos refugiados. Onde estão os princípios fundadores desta geringonça?! Onde estão a paz, a solidariedade, a coesão social e territorial, a colaboração, a subsidiariedade, o humanismo, a civilização mais apurada? Não sei!
Mas sei onde jazem milhares e milhares e milhares de corpos de homens, mulheres, idosos, jovens e bebés que, diariamente, por sua conta ou em grupos, atravessam terras e mares para fugir à morte inevitável e enfrentar a possível.
Sei que imagens obscenas de comboios atafulhados de carne humana, levados, não para campos de concentração mas para ‘campos de refugiados’, voltam a fazer parte do nosso quotidiano, quando (ainda não há muito tempo) jurámos a pés juntos “nunca mais!”.
Sei que esta geringonça, sempre pronta e anafada para salvar bancos privados (à custa dos rendimentos de todos/as) se diz impotente e pobre(?) para acolher seres humanos, merecedores de toda a dignidade de que foram espoliados, em resultado de decisões a que são alheios, mas de cuja responsabilidade, nós, europeus, não podemos fugir.
Sei que a mesma geringonça que chora as vítimas dos actos terroristas (sobretudo, nos países europeus) se recusa, por puro oportunismo e ganância, a embargar a venda de armas e/ou a compra de petróleo aos países e grupos promotores desta mesma barbárie.
Sei, também, que nenhum muro, nenhum arame farpado, nenhum miserável confisco de bens, nenhuma ordem de expulsão ou repatriamento, nenhum gesto ou palavra (por mais xenófoba, racista ou ameaçadora), nenhuma ‘UE fortaleza’, serão capazes de pôr termo à maior fuga de pessoas, desde a II Guerra Mundial, porque o instinto de sobrevivência de todo o ser humano é incontrolável.
Sei que, após uma hipócrita discussão sobre quotas – quantos refugiados recebes tu para eu receber os mesmos ou menos? – a UE se comprometeu a integrar, nos diferentes países que a constituem, cerca de 160 mil pessoas (uma gota de água, num oceano de milhões!). Mas também sei que, até ao dia de hoje, apenas o fez a 266 (repito, 266) pessoas! Pergunto: onde estão, neste preciso momento, todos os outros? Sei que estão em campos, em jaulas, em túneis, em praias, em praças, em florestas, sujeitos à mais desumana miséria e ao mais feroz tipo de chantagens, portanto, morrendo aos poucos.
E sei – todos/as sabemos – que deixar morrer é matar!
E não me venham com a conversa de que a indiferença e o abanar de ombros de tantos/as, face a toda esta obscenidade, se resume ao facto deste indizível caos ocorrer muito longe de nós. É mentira! Está mesmo à nossa porta e o que nos faz virar a cara e fingir que não vemos é o medo! E o medo está a ameaçar os Direitos Humanos mais básicos. Um dia, vamos ser obrigados/as a ter coragem…