Em 1478, em Espanha, a Inquisição iniciou a perseguição aos judeus e muçulmanos, que procuraram refúgio no nosso país. Porém, uns anos mais tarde, atraiçoados pelo preconceito do povo português que atribuiu àqueles que eram os seus mais recentes refugiados a culpa da seca, da fome e da peste que atingiu o país. Foram perseguidos, torturados e mortos, na histórica «Matança da Páscoa de 1506».
As atrocidades não ficaram encerradas no século XV, e recomeçaram no século XX. Assim, em 1933, Portugal recebia a primeira vaga de refugiados judeus e de resistentes ao regime nazi, que passou a vigorar na Alemanha, nesse mesmo ano. Mais tarde, entre 1940 e 1941, Portugal recebeu o seu maior fluxo de refugiados provenientes da Alemanha e dos países ocupados. Estima-se que passaram pelo nosso país perto de 40.000 refugiados que não tiveram outra opção, senão abandonar as suas vidas nos seus países de origem. Não eram propriamente emigrantes, pois não procuravam melhores condições de vida, mas sim uma vida que deixariam de ter, caso permanecessem nos seus países de origem. Tudo porque eram judeus ou porque tinham outras convicções políticas não condizentes com as diretrizes ideológicas nazis.
A partir de 1941, o Governo português, no seguimento da política de neutralidade cultivada pelo Estado Novo durante a 2.ª Guerra Mundial, impôs restrições ao acolhimento de refugiados que pretendiam fugir ao seu extermínio. Ao contrário da atitude cobarde do Estado português, o povo português, à época, não receou que entre esses refugiados pudessem estar nazis com o objetivo de contaminar ideologicamente a sua pátria.
Chegados ao século XXI, não quero viver num país cujo governo se encolha, novamente como durante a Segunda Guerra Mundial, e volte as costas a uma obrigação civilizacional de acolhimento de refugiados, só porque a União Europeia parece ser mais tolerante para com uma Hungria governada por um regime protofascista do que determinada a resolver a vida de milhares de pessoas que fogem da guerra que lhes condenou a vida.
Não deixo de me assustar com as reações de alguns compatriotas que mais parecem viver no século XV e se armam em inquisidores ou cruzados e que agora, mais do que nunca, parecem ter uma preocupação súbita com a pobreza dos portugueses como forma de justificar a injustificável falta de solidariedade. Uma solidariedade que não deve conhecer fronteiras, povos (etnias), orientações sexuais, ideologias ou credos religiosos, mas que, de repente, se tornou tão seletiva e tão patriota.