Foste uma mulher polémica, contraditória, incómoda, cúmplice e irreverente, num espaço geográfico e temporal onde, ainda, poucas mulheres se atrevem a sê-lo. E foste tudo isto sem cerimónias, sem pedir desculpa pelo pioneirismo e sem medo, também.
Quando esperavam que chorasses, soltavas uma gargalhado sonante e seguravas-te a um sorriso permanente, fechando as portas da alma a qualquer tipo de intrusão paternalista ou hipócrita. Quando esperavam que recuasses, mantinhas-te, aparentemente impávida, no lugar, na ideia, na causa ou na decisão que tinhas escolhido, com as fileiras das tuas dores e frustrações todas cerradas a qualquer tentativa de ‘canto da sereia’, cantasse quem o cantasse. Quando esperavam que estivesses do lado de quem tem tudo, encontraram-te ao lado dos despojados. Quando te esperavam elitista e snob, encontraram-te generosa, humilde, genuína e simples. Quando te pensavam ‘domada’, renascias luminosa, atrevida, contundente.
Tu foste, sempre, maravilhosamente surpreendente e imprevisível. Usaste, com mestria inimitável, a imagem de fragilidade feminina a que um corpo pequeno e alvo te remetia, para te atirares como uma leoa às presas que tinham negligenciado a tua força, a tua capacidade, a tua determinação. Amavas o belo e o bom e, por isso, glorificavas a vida. Sofrias às escondidas, silenciosamente, porque o pudor e a cerimónia faziam parte da tua forma de te relacionares com os outros.
Sim, foste também uma académica de renome, uma investigadora apaixonada, uma escritora original, uma Açoriana profundamente orgulhosa e amante das suas raízes, se bem que lúcida e crítica, como o verdadeiro amor deve ser. Nunca alimentaste grandes ilusões ou expectativas sobre o reconhecimento que te era devido e, no fundo, até eras bem capaz de achar que não o merecias, por modéstia pura mas também por saberes que este reino é feito de inveja, mesquinhez e intriga, além de efémero.
E, no entanto, ninguém te esquecerá, aquém e além mar. Cada um/a, à sua maneira e por razões diferentes, guardará de ti uma memória doce, gentil e eternamente viva. Porque, entre os/as Amigos/as, o adeus é sempre um reencontro.