Não posso deixar de sublinhar duas sequências de notícias que surgiram na comunicação social local e nacional, na semana passada.
Num órgão de comunicação social local, deparei-me com uma sequência de notícias reveladora da falência da política nacional e regional quanto ao aproveitamento geoestratégico da base das Lajes e do porto da Praia da Vitória. Se num dia as atenções se dirigiam para as potencialidades da utilização comercial destas infraestruturas para a dinamização da economia local e regional e favorável à criação de emprego, mas incompatível com os requisitos de uma utilização militar, mesmo que espaçado no tempo na sua intensidade, logo no dia seguinte, surgiram notícias que desmentem a desvalorização da importância da base das Lajes para os interesses militares norte-americanos, num relançamento daquela que passaria a ser, novamente, a pérola do Atlântico. É nesta ambiguidade que se encontra o âmago dos interesses nacionais e regionais. Por outras palavras, não vale a pena reivindicar investimentos no porto da Praia da Vitória e no aeroporto das Lajes, se a elite insular e regional continuar a suspirar pelo ressurgimento do interesse militar norte-americano na nossa posição geoestratégica e, dessa forma, fazer perpetuar a economia rentista a que está habituada e conformada.
Outra sequência de notícias, desta vez nos órgãos de comunicação nacionais, coloca em evidência, não só a tradicional desigualdade social do nosso país, mas também as opções políticas responsáveis por tal realidade. As duas notícias em causa abriram os telejornais e permitiram-nos ficar a saber que Ricardo Salgado teria a sua pensão aumentada, que passaria a receber 90 mil euros por mês, em vez dos atuais 29 mil euros e com direito a um bónus de 1 milhão de euros em retroativos. Uma pensão suportada por um fundo de pensões de um antigo BES, um banco intervencionado e salvo pelo Estado (todos nós), devido às ingerências de Ricardo Salgado.
A notícia seguinte, com menos destaque, presenteou-nos com um governo muito preocupado e responsável que reuniu em Conselho de Ministros para evitar que, por via do atraso na entrada em vigor do Orçamento de Estado, não entrassem em vigor, no próximo ano, a sobretaxa do IRS e os cortes salariais. Enfim, um governo sempre muito atento, preocupado e empenhando em manter os sacrifícios de 99% dos portugueses, mas sempre tão displicente em evitar que o ex-dono disto tudo usufruísse da triplicação da sua tão humildade pensão.