Glifosato is Holy Water

Em 2010, o BE alertou a opinião pública para a aquisição, por parte da autarquia, de um conjunto de placas informativas. À época, considerámos que o valor médio de cada placa seria exorbitante, mas lá nos tentaram explicar que tais placas estariam conforme o mesmo modelo adotado por outras grandes cidades com assinalável património histórico e que o custo compensaria, dada a qualidade do material e da gravação 'com' ou 'a' fogo dos carateres que iriam compor a informação.

Sabemos também, e o presidente da autarquia concorda, que as placas em causa foram caras (entre os 3000€ e os 3500€ cada), mas independentemente dos valores envolvidos, e segundo o presidente da autarquia, os erros detetados são imputáveis à empresa que as concebeu, logo justificar-se-ia a devolução das placas para a sua correção ou substituição. Contudo, não serão devolvidas e os erros não serão corrigidos. Uma decisão, no mínimo, estranha.  

Não fossem os erros de conteúdo, e os valores envolvidos na aquisição de tais placas não seriam questionados, tal como o custo da mudança da heráldica do município - outra inovação autárquica com um custo, até hoje, desconhecido - que não causou qualquer celeuma, pois ninguém 'meteu água' no processo de restauração das cores e do brasão da cidade sem árvores.

A nossa cidade não amanhece somente com placas informativas com traduções duvidosas, mas também com operações de borrifamento de glifosato nas suas ruas, um herbicida que desregula a atividade hormonal e com efeito cancerígenos, mesmo que em doses reduzidas, e que mata indiscriminadamente, quer se tratem de 'ervas daninhas', quer se tratem, por exemplo, de árvores.

Numa região como a nossa, com uma tradição agrícola rica em técnicas sustentáveis de trabalhar a terra, é inconcebível que se desconsidere uma diretiva europeia que limita a utilização de pesticidas e privilegia os meios biológicos e mecânicos, e se opte pela utilização de um herbicida cujo princípio ativo é utilizado por uma famosa marca ligada a uma grande multinacional que domina o mercado dos organismos geneticamente modificados (OGM). Por coincidência (ou não), o atual presidente da autarquia foi o responsável pela tutela do Ambiente, no Governo Regional que legislou no sentido de tornar a Região livre de OGM, mas aberta à criação de campos experimentais para o seu cultivo, sem que se tenham estipulado medidas de confinamento, numa manobra exemplificativa do modus operandi do atual presidente da autarquia angrense que dá sempre «uma no cravo e outra na ferradura», com o intuito de agradar e colher os votos de todos, sem nunca se comprometer com nada, mas que se prepara, de certeza, para garantir, aos munícipes, de que a cidade não foi mais do que borrifada com água benta ou, como se diz em inglês, 'Holy water'.