Não há ‘boas’ greves e ‘más’ greves. Não há bons momentos para serem convocadas e outros, menos convenientes, a justificarem a sua não realização. A greve é, racionalmente, o último recurso a que um sector de trabalhadores/as recorre, quando esgotou todos os instrumentos de negociação, no sentido de defender direitos já conquistados e aos quais, anteriormente, foi reconhecida justiça e razoabilidade. Uma greve acontece quando tem de acontecer. Dizer que o direito à greve é constitucional e inquestionável para, logo a seguir, acrescentar que os/as grevistas devem procurar fazê-la sem incomodar ninguém, não faz qualquer sentido. Quem pretende sonegar direitos alcançados pelos/as trabalhadores/as é que são os verdadeiros réus e não aqueles/as que os defendem.
Portanto, a responsabilidade dos prejuízos causados pela greve da SATA, deve ser imputada aos governos regional e da república e nunca a quem, in extremis, a convoca. E é bom não nos esquecermos que a referida greve tem contornos obscuros inegáveis, resultantes de um incompreensível quadro de nebulosa e de secretismo, nas relações entre os dois governos, que tornou reféns os/as trabalhadores/as da SATA.
A cronologia da história mostra bem o grau da trapalhada em questão: o acordo alcançado com a TAP seria extensível à SATA; o acordo alcançado com a TAP já não seria extensível à SATA porque era legal, na república, mas ilegal(?), nos Açores; a administração da SATA pergunta, por carta, ao Governo da República se pode(?) aplicar o acordo à SATA; na ausência de resposta, trata-se de convencer a opinião pública de que os/as trabalhadores/as da SATA, afinal, já têm tudo aquilo que reivindicam; crucificam-se, na praça pública, os/as trabalhadores/as da SATA, por serem oportunistas, tolos e insensíveis; o Governo Regional afirma que, no final da greve, “existirão consequências”, sem dizer para quem, porquê e para quê. Hã?!
Há, nesta história, tantas contradições, confusão e omissões, que eu acho aconselhável prescindirmos de zurzir nos bodes expiatórios mais à mão – os/as trabalhadores/as da SATA – e tentarmos perceber o que esconde, realmente, toda esta encenação. Pretexto fabricado para a SATA deixar de ser pública? Fica a pergunta…