Greve hoje não, amanhã sim

 

Os trabalhadores da TAP reivindicaram junto ao Governo da República, um Acordo que evitou os cortes previstos no Orçamento de Estado para 2013. Todavia, e para surpresa de todos aqueles que estão mais atentos às idiossincrasias ideológicas, o Governo Regional, supostamente de esquerda, está mais incomodado com a possibilidade de estar a violar uma norma orçamental de um orçamento cujo autor é um Governo da República de direita e obcecado pela austeridade, com a agravante deste ser um orçamento que terá de ser retificado. Afinal, quem precisa de um Governo Regional de direita, quando temos este Governo Regional?

Não. Não estamos na «terra de oz», mas até parece. Vivemos numa Região Autónoma, governada por um PS desgostoso para pagar, com gosto, o subsídio em falta aos funcionários públicos, pois só o pagou, depois do Tribunal Constitucional deliberar sobre a inconstitucionalidade do confisco desse subsídio.

Um PS/Açores que, publicamente, até reclama um aumento do salário mínimo e censura um Governo da República que não o aumenta, mas que por outro lado, e apesar de nada o impedir, fica à espera de um aumento do salário mínimo nacional, para aumentar o salário mínimo regional.

Ultimamente, o PS/Açores só não evita os cortes salariais dos trabalhadores da SATA, previstos no Orçamento de Estado para 2013, porque está à aguardar, por uma espécie de confirmação de legalidade, por parte do Governo da República, de uma decisão tomada pelo Governo da República. Confuso? Não. É só um PS/Açores que não hesita em seguir, os fundamentos da política da austeridade e que está agrilhoado, indiretamente, aos ditames da finança internacional e dos interesses nacionais, historicamente, instalados e sem deixar de estar, também ao serviço de interesses regionais.

Não sei porque é que as consequências económicas desta greve não são comparáveis às consequências económicas dos cortes salariais sofridos, não só pelos trabalhadores da SATA, mas também por todos os trabalhadores e pensionistas? Não serão os cortes salariais, independentemente do setor,  a causa da redução drástica do poder de compra?

Também não quero acreditar que a insistência, por parte do Governo Regional, em manter os cortes salariais é uma forma de reduzir os custos da SATA, com o objetivo de a tornar mais apetecível a uma futura privatização. Mas, se for esse o caso, então é um 2 em 1. Porque além da redução de custos, conseguem, com toda esta confusão, reforçar a ideia dos seus clientes, segundo a qual o privado é sempre melhor.

Uma confusão jeitosa que iliba o Governo Regional de qualquer responsabilidade, quando poderia ter sanado, há muito, os motivos desta greve.

Se as greves só são aceitáveis, se não incomodarem o consumo de alguém. Então, o que é mais importante para a sociedade? O cidadão ou o consumidor?

Se as greves não são aceitáveis, porque há sempre alguém que tem um ordenado menor, então porque não reclamar por um salário mínimo decente e que tire as pessoas da pobreza? Mas, apesar de tudo, quem ganha o salário mínimo é porque tem emprego, e há quem não o tenha. Então, será que a única greve aceitável é aquela que é feita por desempregados?

E mais uma vez, e como já é hábito, lá se vai nivelando por baixo e dividindo o povo. O que é certo, é que quem está por cima, está mais unido do que nunca e sabe o que quer, sem contudo saber para onde vai. Porque o preço da desigualdade será demasiado alto.