Haja saúde!

Mas a verdade é que não há. Ou, pelo menos, há cada vez mais dificuldade em aceder aos serviços que velam por ela e têm, por missão pública, garanti-la, tanto quanto clinicamente possível.

E não há, porque a burocracia e os papéis que é sempre preciso ir buscar a algum lado atrasam, irremediavelmente, a chegada a porto seguro, que é como quem diz, ao ‘hospital’, à ‘unidade de saúde’, à ‘consulta externa’, ao ‘laboratório’, etc.

E não há, porque os médicos escasseiam e assim continuará a acontecer, enquanto continuarmos sentados, à espera que eles, aqui, caiam de maduros.

E não há, porque depois dos/as Açorianos/as terem pago bolsas de estudo a alunos do curso de Medicina, no continente (cerca de 12 mil euros, por aluno/a), assumindo estes o compromisso de, uma vez concluído o curso, ressarcirem a Região, através da sua fixação nos Açores para a prática médica, a absoluta aberração acontece: mesmo aqueles/as que aqui querem permanecer e trabalhar são mandados embora, de volta para o continente, porque, nos Açores, pelos vistos, ninguém precisa deles! E nós, cidadãos/ãs comuns, perdemos duplamente: perdemos o dinheiro que investimos e perdemos um recurso humano essencial para que ‘haja saúde’. Faz algum sentido tudo isto?!

E não há, porque a média de ordenados dos médicos, no público (e em exclusividade, já agora), chega a roçar o despudor e a exploração, pura e dura.

E não há, porque a insanidade economicista e ‘racionadora’ – não confundir com ‘racionalizadora’, por favor – tomou conta de quem manda, nesta área.

E não há, porque só quem está verdadeiramente doente – ou teme está-lo -, sente na pele o desespero de listas de espera de meses e anos (anos!) – para consultas, para cirurgias, para exames complementares de diagnóstico, para tudo aquilo que, afinal, poderia garantir-lhe a saúde que não têm e/ou a cura que urge.

Falamos, obviamente, da saúde pública e não da privada. Quem tem folga orçamental, no fim do mês, poderá sempre contornar todas estas dificuldades e ligar o número de telefone de um consultório, marcando, legitimamente, uma consulta.

Mas…e quem não tem? Contorna o quê? Contorna como? Liga para que número?

Deixem-me dar-vos um exemplo, fresquinho de dias e que, em boa verdade, poderão multiplicar, sem grande cerimónia, por tantos, tantos e tantos outros, iguais ou semelhantes, no caso, aqui, em S. Miguel.

Uma colonoscopia, pedida por um médico de família (‘abracadabra’ para a entrada no Serviço Regional de Saúde) tem, no mínimo, 1 ano de espera. O mesmo exame feito, numa clínica privada da ilha, demora 3 dias a estar concluído, mas custa cerca de 550 euros, a que se juntam mais 49 euros, por cada pólipo extraído. 40 anos de descontos para a Segurança Social? Bá! Isso não interessa nada. Cartão Medicare no bolso? Bem, se for ao Hospital da CUF, a Lisboa, não chega a pagar 200 euros. Cá, terá que pagar cerca de 470 euros. Ora, se o cidadão em causa já estava doente, imaginem como se sentirá agora, ao fim de uma vida de trabalho, descontos e impostos, a ser tratado como “um mendigo”, nas suas próprias palavras…

Solução? Não há! Mas, sabendo que o cidadão em causa já contactou com todas as entidades e instituições que lhe poderiam valer, continuando à espera do tal telefonema de volta que lhe foi prometido e nunca chegou…vou eu falar com o Senhor Secretário Regional da Saúde para, simplesmente, lhe perguntar o que faria ele, numa situação idêntica!

Para a semana, já saberemos.