A Dona Graça estava à porta da mercearia solidária da Solidaried’Arte, hesitante e de māos nos bolsos do casaco manchado. Estava muito frio, por isso estranhei vê-la de pés nús com chinelos. Convidei-a para entrar. Ela disse que não vinha fazer compras, mas eu sugeri ela entrar de qualquer modo e dar dois dedos de conversa.
A Dona Graça parecia ter aí uns 70 anos, mas depois pela conversa percebi que as rugas e marcas no rosto eram mais devidas a uma vida dura do que à idade. Passados alguns minutos ela começou a dizer de sua vida e chorou ao abandono. Tem filhos adultos que não lhe dāo nem atenção nem apoio. Vive sozinha num apartamento no bairro social onde a mercearia está inserida. Tem três pares de peúgas que estavam a secar, daí estar com os pés frios. Recebe 160 euros mensais de RSI e não tem mais fontes de rendimentos. Desse dinheiro, paga o consumo da eletricidade, água e gás. Resta-lhe cerca de cem euros por mês para comida e medicamentos.
A Dona Graça estava há três dias sem comer e não toma os medicamentos porque não tem dinheiro para os comprar. Disse que tem dificuldade em dormir porque está esfomeada, e acrescentou várias vezes que quer morrer. E as lágrimas continuavam a cair de partir o coração. Enchemos um pequeno saco de comida para amanhar entretanto, mas falta um plano de apoio mais alargado.
A Dona Graça está profundamente deprimida. Mas quem pode estranhar? Pobre, esfomeada, isolada, envergonhada de pedir ajuda, oprimida por um passado muito sofrido, como não estar deprimida? Ela está incapacitada e, penso, idosa. Não pode trabalhar e nem sequer tem dinheiro para transportes públicos. Anda muito. Tanto para amanhar a sua vida como para desanuviar o espírito.
A história de desespero da Dona Graça não é, infelizmente, isolada. Quantas pessoas vivem em miséria extrema? Cento e sessenta euros por mês é o preço que os contribuintes pagam para ela ter uma refeição por dia e tantas vezes nem para isso chega. Agora com o aumento de preços do cabaz alimentar, quantas mais pessoas entre nós estāo a passar fome? E ainda há tanta gente a falar mal do RSI! Eu sou uma pessoa geralmente frugal, mas não consigo pagar mercearia de um mês por cem euros. Tal como a Dona Graça eu passaria fome. Qualquer pessoa passaria fome! É assim que nos queremos definir como sociedade?
A Dona Graça não vive do seu trabalho porque não pode, não tem condições para trabalhar. Ela está entre os mais pobres dos mais pobres entre nós. Está verdadeiramente à margem da sociedade. Está na altura de com mais força denunciarmos, não só os apoios sociais de miséria, mas todos aqueles populistas que vilificam os pobres entre nós e querem ainda mais reduzir o pouco apoio que recebem.