O João, que se poderia chamar ‘António’ ou ‘Manuel’, vive nos Açores, tem dezasseis anos e tal como qualquer rapaz da sua idade está a descobrir as suas fontes de desejo e as suas paixões. E como sabemos, por experiência da vida, ninguém escolhe de quem gosta e por quem se sente atraído.
Acontece que o João apaixonou-se pelo José e essa é, para os seus pais, uma paixão proibida. Mais do que proibida, para os pais do João, outrora emigrantes e com familiares nos Estados Unidos, trata-se não só de uma paixão pecaminosa, mas também de uma doença.
É óbvio que a maioria das pessoas apaixona-se por pessoas do sexo oposto, mas ninguém considera que em Portugal, e nos restantes países latinos, as pessoas com olhos azuis e cabelos louros, só por serem uma minoria, são doentes. Por outro lado, alguém que se apaixone por pessoas do mesmo sexo já pode, segundo a opinião de alguns, ser um doente, em total desconsideração pelo que nos diz a Psicologia e a Medicina que retiraram, há décadas, a homossexualidade da categoria das psicopatologias.
Sabemos que os pais do João não se conformam com a normalidade do filho, mas conformam-se e reforçam o preconceito associado à homossexualidade e para o qual a religião muito tem contribuído, ao ponto de, nos Estados Unidos, existirem clínicas e denominados 'campos de férias' que oferecem as designadas terapias de reorientação sexual, ao arrepio das normas estabelecidas pela American Psychological Association, a American Psychiatric Association e a Organização Mundial de Saúde, mas que funcionam sob uma alegada idoneidade médica quando na realidade perseguem objetivos religiosos e fazem por confundir a opinião pública acerca dos significados de 'pecado' e 'doença'.
Estas terapias, como é óbvio, não conseguem converter homossexuais em heterossexuais, mas conseguem criar nas pessoas a que elas se submetem fortes sentimentos de inadequação e auto-desvalorização pessoal, resultando em quadros depressivos e de suicídio. Estas consequências são tão mais graves, quando envolvem menores a quem está vedado o acesso a estas terapias, em alguns estados norte-americanos, por decisão legal.
Ora, os pais do João tiveram conhecimento da existência destas pseudo-clinicas e destes 'campos de férias' nos EUA, e como têm contactos por lá, decidiram enviar o seu filho para se submeter à alegada cura. Até podemos acreditar que os pais sentem algum desconforto por saberem que o seu filho será submetido a uma terapia que envolve choques elétricos nas mãos, nos órgãos genitais e a administração de medicamentos que induzem o vómito para suscitar, supostamente, aversão a desejos homossexuais, mas todo esse sacrifício se sobrepõe à possibilidade do seu filho ser curado.
Parece por demais evidente que casos, como aquele que está a ser vivido pelo João, devem ser enquadrados como maus tratos a menores e denunciados às Comissões de Proteção de Crianças e Jovens. Todavia, o João tem toda a razão para estar assustado, não vivesse ele numa Região em que parte da opinião pública e publicada perdoa, e até enaltece, quem defende que a homossexualidade está associada à pedofilia e que, por vezes, são as próprias crianças que provocam o agressor, mas que fecha os olhos, silencia o João e envia-o para o estrangeiro, onde encontrará a cura para a normalidade da sua paixão.