Imitar o Mar ou Imitar o Futebol

Transformaram a Seleção de Futebol numa empresa, orientada por publicidade e marketing. Ganham as contas bancárias de uns, perde a paixão e o sonho de tantos que amam o futebol. 

O mesmo se passa aqui na nossa ilha, com as festas para celebrar o Mar. Não escrevo isto porque ache que exista uma forma certa de fazer uma festa para celebrar o mar e a nossa ligação a ele. Não existe. Há, seguramente, centenas de ideias melhores do que aquelas que eu seria capaz de imaginar. Haverá artistas, associações, escolas, cientistas e cidadãos com propostas criativas, ousadas e transformadoras. Mas atrevo-me a dizer que dificilmente a boa utilização de dinheiro público para celebrar o mar será comprar objetos insufláveis produzidos a milhares de quilómetros de distância, concebidos para viver uma noite e acabar esquecidos num armazém. É uma questão de coerência.

Vivemos uma época em que falamos de sustentabilidade todos os dias. Pedimos às crianças que reciclem. Dizemos-lhes para reduzirem o consumo, para respeitarem os oceanos, para protegerem a biodiversidade. Depois, quando chega a hora de dar o exemplo, montamos uma festa onde só importa o cenário, só importa o parecer, onde o mar é substituído por plástico. Que lição estamos realmente a transmitir?

No tempo das selfies e das stories… há uma estranha obsessão por transformar tudo em cenário. Queremos o fundo do mar? Compra-se um contentor de plástico, acendem-se luzes negras e, durante algumas horas, fingimos que estamos rodeados de vida marinha. No dia seguinte, desmonta-se tudo. O oceano continua onde sempre esteve. O plástico também.

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Não faltam alternativas. Podíamos levar pessoas ao mar em vez de trazer um mar de fantasia para uma rua. Podíamos convidar pescadores, mergulhadores, biólogos, artistas. Podíamos construir instalações com materiais reutilizados. Podíamos apoiar criadores locais. Podíamos recuperar histórias, tradições, embarcações, espécies, memórias. Podíamos fazer mil coisas diferentes. Mil.

Não porque fossem mais baratas. Nem porque fossem mais bonitas. Mas porque seriam verdadeiras. Existe uma diferença enorme entre entretenimento e cultura. O entretenimento pede impacto imediato. A cultura procura deixar marca. O entretenimento mede-se na fotografia da noite. A cultura mede-se na memória de quem participou.

Naturalmente, um grande espetáculo atrai multidões. Também um jogo com o Cristiano Ronaldo terá sempre mais espectadores do que um jogo onde ele fica no banco. Mas, queremos apenas mais espectadores? Mais likes? Ou queremos que as pessoas saiam diferentes da forma como entraram? Porque essas duas coisas nem sempre coincidem.

Confundimos frequentemente popularidade com qualidade.  Mas não são a mesma coisa. A melhor celebração do mar será sempre aquela que nasce dele, que o respeita e que nos aproxima dele. Não a que tenta substituí-lo. Vivemos numa ilha. Talvez o maior paradoxo seja precisarmos de importar um oceano de plástico para nos lembrarmos de que estamos rodeados pelo verdadeiro.

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Será que a Horta ficou um lugar melhor depois da festa acabar. Será que faz sentido gastar 70mil euros numa noite quando há associações que trabalham o ano inteiro para receberem 5mil?

O dinheiro público comprou uns cenários, mas podia ter construído relações, poderia ter produzido memórias únicas. A escolha nunca é apenas estética. É uma escolha sobre aquilo que queremos ser. Agradar é importante, mas fazer melhor é uma responsabilidade.