Lágrimas de crocodilo

O modelo de desenvolvimento económico da Região tem sido objeto de debate político. Um debate com um resultado consensual, pelo menos no plano teórico. Assim, todos, independentemente do seu campo político-ideológico, defendem um tal de modelo de desenvolvimento harmónico, mas ignoram, ou fazem de tudo para que a opinião pública ignore, premissas ideológicas incompatíveis com tal consenso.

Quem defende a liberalização do mercado e privatizações a 'torto e a direito' para garantir serviços públicos, ao ponto de confundir liberalismo económico com democracia, quando compara a liberalização do mercado dos transportes aéreos dos Açores e para os Açores com a queda do muro de Berlim, não pode de maneira alguma defender, de forma consequente, um modelo harmonioso de desenvolvimento para a Região.

O serviço público de transporte aéreo está comprometido nas ilhas do Faial e do Pico, após decisão da TAP, a companhia aérea nacional, por enquanto, de capitais públicos e, em breve, por decisão política do governo da república PSD/CDS, de capitais privados.

O encerramento das rotas que ligavam Faial e Pico ao continente é resultado direto do processo de privatização em curso da TAP,ee e eee e afeta, em primeiro lugar, os faialenses e os picoenses, e demonstra, muito claramente, que o interesse privado só coincide com o serviço público quando dá lucro. Portanto, trata-se de uma decisão política com vista a 'despir' a TAP de qualquer vestígio de operadora de um serviço público. Nesse sentido, os faialenses e os picoenses não podem ser prejudicados. Se hoje, com a saída da TAP, ficam 'descalços'. Amanhã, quem sabe, quando outros altos interesses se levantarem, ficarão 'nus'?

A TAP, ao sair de 'malas e bagagens' do Faial e do Pico, nem considerou o compromisso que estabeleceu com os seus últimos passageiros, os quais são, agora, obrigados a adiar as suas viagens ou a deslocarem-se para outras ilhas para garantirem as suas ligações.

Convém, igualmente, não esquecer os funcionários do balcão da TAP na Horta que foram totalmente desconsiderados e abandonados pela própria empresa, e que perante a total inoperância da companhia, assumiram, até ao último fôlego, o seu dever como representantes da TAP junto ao público, sem terem tido quaisquer certezas acerca do seu futuro.

Em suma, quem 'chora' e 'esperneia' nos Açores pelo encerramento das ligações com o continente pela TAP, mas defende a privatização da TAP e a liberalização do mercado aéreo entre a Região e o continente, só pode chorar autênticas 'lágrimas de crocodilo' e só merece ter muitas 'cãibras' por todo o esforço investido em tal 'esperneio'.