Não me oponho à ideia de dar aos eleitores a possibilidade de escolherem o(a) candidato(a) da sua preferência, mas, ao contrário do que tem sido, insistentemente, propagandeado, não creio que seja a solução para o problema da abstenção e o fator capaz de revolucionar a democracia tal como a conhecemos.
Parece-me, mas assumo que poderei estar errado, que esta ideia, ao ter sido adotada pelos partidos alinhados com a política da inevitabilidade, poderá ser sintomática de uma ideologia extremista que procura disfarçar o seu caráter antidemocrático, cada vez mais evidente, dada a impossibilidade da escolha de políticas.
Política única, sem possibilidade de alternativa, é típica de regimes totalitários, porque democracia sem possibilidade de escolha não existe. Assim, e no contexto da recuperação ou reabilitação desesperada da democracia - uns porque pretendem disfarçar o que é praticamente impossível de disfarçar (a falência da democracia) e outros porque pretendem, genuinamente, salvar e reforçar a democracia – muitos eleitores veem nas listas abertas a possibilidade de voltarem a ter a capacidade de escolha.
Desconfio que as listas abertas sejam a solução para reduzir a abstenção. Se assim fosse, seria de esperar que as eleições presidenciais (de voto unipessoal) fossem as mais participadas, mas não é isso que se tem verificado. Além do mais, sem o devido acautelamento, poderá ser uma ameaça à paridade.
Se por um lado, para quem não desistiu de lutar por políticas alternativas, contrárias ao extremismo da inevitabilidade da austeridade, as listas abertas poderão ser perspetivadas como um aditivo, mas nunca como o centro da democracia; por outro lado, quem alinha no extremismo da inevitabilidade da austeridade, a possibilidade de escolher o seu representante passou a ser a máscara ideal para continuar a acreditar que não vota em partidos extremistas.
A falência de uma União Europeia democrática e solidária que se perpetua graças à chantagem feita pelo seu diretório à subserviência dos governos dos países do sul e ao medo dos seus povos, está mais clara do que nunca. Paulo Portas, num discurso estafado, e cada vez mais alienado da realidade, acusa o governo grego de ser extremista por ter tido a insensatez de convocar um referendo popular para conhecer o rumo que os seus cidadãos pretendiam dar ao seu país, mas simultaneamente saúda a sensatez do centro-direita e da direita democrática que tiveram sempre medo de utilizar a democracia para conhecer o rumo que os seus cidadãos pretenderiam dar ao seu país e à União Europeia.
Enfim, para muito(a)s a escolha do seu representante será sempre mais importante do que referendar as políticas, como se só nos restasse a possibilidade de escolher o carrasco, em vez de fugirmos à guilhotina.