Devo confessar que fiquei surpreendido pela atitude defensiva demonstrada pelo Sr. Arlindo Teles e C.ª. Nunca pensei que, na Terceira, os representantes da tauromaquia de luxo se sentissem tão incomodados por um dirigente de uma alegada extrema-esquerda raquítica, o que não deixa de ser paradoxal, para quem tem na pertença e liderança de uma maioria, o seu único argumento.
O artigo de opinião, intitulado 'Estatísticas', da autoria do Sr. Arlindo Teles e C.ª é muito esclarecedor quanto aos números envolvidos, no financiamento público atribuído à tauromaquia de elite.
Não nego os valores anunciados em tão excelsa opinião e, por isso, nem tenho necessidade de os deturpar e dou de 'barato' qualquer diferença, que será sempre mínima, naquilo que não deixa de estar nas cifras das centenas de milhares de euros do erário público atribuídos à Tertúlia Tauromáquica Terceirense (TTT).
Assim, de repente, lembro-me de 75.000€ que foram atribuídos pela Região à TTT para a organização de um fórum taurino que durou 3 dias e mais recentemente recordo-me de um subsídio de 750€, uns trocados, no meio de milhares de euros, para a aquisição dos trajes para o grupo de forcados. Portanto, mais milhar, menos milhar, mas estão sempre em causa centenas de milhares. Fiquei, por isso, muito satisfeito pela confirmação, ainda que mais precisa, das centenas de milhares de euros que a TTT tem recebido da autarquia angrense.
É interessante que V.Exa., e C.ª referem o momento da assinatura do primeiro protocolo assinado com a autarquia angrense, ocorrido em finais de 2010, para financiar as corridas de toiros das Sanjoaninas de 2011, certo? Conhece o Sr. João Duarte? Claro que deve conhecer. Aliás, o Sr. João Duarte era (ou pelo menos, parecia) ser um benemérito da tauromaquia, ao ponto de querer assumir todas as despesas inerentes à organização da Feira Taurina de São João? Então, porque é que a TTT não aproveitou essa oportunidade? Porque é que preferiu aceitar dinheiro público, em vez de aceitar a boa vontade do Sr. João Duarte?
Mais uma vez, dou de 'barato' que opte por me acusar de querer deturpar os factos, apesar de ter lido tal notícia no 'Farpas' que não é, propriamente, uma publicação anti-taurina. Será que tiveram, porventura, a necessidade de recorrer a financiamento público, porque a tauromaquia de luxo não é assim tão rentável? Por outras palavras, os privados têm sérias reservas ou dúvidas acerca da rentabilidade de uma atividade, pretensamente, tão dinamizadora da economia, o que poderá indicar uma procura reduzida face à oferta de espetáculos tauromáquicos, mesmo quando estão envolvidos os 'Cristianos Ronaldos' da tauromaquia.
V.Exa., e C.ª fecharam-se na defesa perante um alegado ataque da extrema-esquerda radical aos vossos interesses. Não vos censuro, fizeram aquilo que é mais do que compreensível em democracia. Defenderam as vossas opiniões. A mim cabe-me defender, enquanto dirigente de um partido político, a gestão do financiamento público. Portanto, quaisquer outras análises e conclusões pseudo-ideológicas, baseadas em preconceitos sobre o que é ser de extrema-esquerda na ilha Terceira e nos Açores são, no mínimo, uma ficção que vos serve para lidar com as idiossincrasias da vivência em sociedade.
Concluir que todo o militante e simpatizante do BE é anti-taurino é um erro lógico básico. Nenhum dirigente do BE/Açores anunciou qualquer pretensão em proibir as touradas. Temos, é verdade, uma posição muito clara sobre a 'sorte de varas' e sobre o financiamento público à tourada e temos militantes e simpatizantes que são anti-touradas temos outros que são indiferentes em relação às touradas e para surpresa das surpresas temos, igualmente, aqueles que são aficionados. Também é verdade que existem militantes e simpatizantes de outros partidos, incluindo de direita, que são anti-taurinos. Como poderão constatar, não são pessoas incoerentes, mas antes pessoas que não têm na tauromaquia o busílis do seu pensamento político e ideológico.
Não compreendo os receios de V.Exa., e C.ª sobre o estatuto cultural da tauromaquia, senão como entender a vossa urgência em lançar uma campanha, sem precedentes, para tentarem, formalmente, legitimar a tauromaquia como cultura através da consagração pública e política. Que eu tenha conhecimento, não assisto a tamanha urgência para assegurar o estatuto cultural de atividades ligadas ao teatro, à música ou até mesmo à gastronomia.
Mas, mais uma vez, dou de ‘barato’ ou, melhor, vou vos conceder uns kms de avanço, naquilo que entendem como uma corrida para as urnas, e vou admitir que têm razão e que a tauromaquia é cultura. Então, para a Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, há atividades culturais que são mais culturais do que outras. Passo a explicar, enquanto a autarquia vos concedeu, no âmbito do referido protocolo, 250.000€ (estou a dar um valor por defeito), foram, por sua vez, atribuídos 25.000€ à requalificação do teatro angrense. Não se trata, portanto, de discordar sobre o financiamento público à cultura, mas antes sobre a distribuição desse financiamento.
O que não é muito habitual, é terem vozes discordantes sobre os vossos interesses, e bem sei que confundem o vosso interesse com o interesse de, pelo menos, todos os terceirenses e para isso, não vos basta ter uma maioria do vosso lado, como também querem ter a unanimidade e todo o consenso. No entanto, sabem que isso será impossível, pelo que toleram quem não gosta de touradas e odeiam quem é contra as touradas, mas estará sempre tudo bem, enquanto aqueles que são contra, não manifestarem, publicamente, a sua opinião. Esse é o vosso entendimento de liberdade.
Bem sabemos que têm, oficialmente, o apoio de quase todo o espetro político-partidário. A vossa força é enorme, e só o é, porque há quem contribua para isso, tão somente porque sente que depende do vosso apoio para ganhar votos. Por isso, vão todos ao vosso «beija-mão», ou melhor, quase todos. Porque eu, pelo menos, não vou.
Usar uma maioria como argumento para ter razão é perigoso. Assim, de repente, lembro-me de Adolf Hitler que tinha a maioria do povo alemão do seu lado, sem que isso significasse que tivesse razão.
Mas até vos posso dar um exemplo benigno. Eu, que até sou adepto do Benfica, sei que o Benfica não jogará melhor ou terá a melhor equipa, só porque tem mais sócios ou um estádio maior que permita albergar mais adeptos do que o Sporting ou o F.C. Porto.
Querem mais exemplos, para demonstrar a fragilidade dos vossos argumentos?
Exmo., Sr. Arlindo Teles e C.ª, devem saber e reconhecer que o povo brasileiro gosta tanto ou mais de futebol como os terceirenses gostam de touradas. Segundo as últimas estimativas, 3 em 4 brasileiros concordam com as manifestações que colocam em causa o financiamento público à construção de estádios de futebol em detrimento de maior investimento na educação, saúde e transportes públicos. Será que V.Exa., e C.ª acreditam que os brasileiros deixaram de gostar de futebol? Não me parece. Porque tiveram o discernimento de não confundir as coisas. Da mesma forma, alguns aficionados terceirenses, e não só da ilha, não confundem a tourada com o respetivo financiamento público.
Exmo. Sr. Arlindo Teles e C.ª não precisam relembrar que não respeitam a extrema-esquerda, ou melhor, quem é contra o financiamento público à vossa indústria, algo que tem sido evidente nas ameaças de boicote comercial a empresários que assumem, publicamente, a sua opinião sobre o financiamento público à tauromaquia. Peço-lhe, o favor, de cessar tal comportamento, pois não irei tolerar qualquer ameaça dirigida a quem queira manifestar a sua opinião sobre a tauromaquia, incluindo a minha pessoa.