Marchas e manifs

Tempos houve em que os comportamentos homossexuais e bissexuais eram considerados sintomas de uma perturbação psíquica e nem eram tolerados na privacidade de um qualquer beco ou esquina escura.

Na década de 60 do século passado, Kinsey retirou a máscara à sociedade que cultivava uma imagem, cuja norma excluía matizes da vivência da sexualidade, não fossem essas matizes tão diversas quanto a diversidade inerente ao ser humano. Afinal, a sociedade desmascarada mostrava que indivíduos com comportamentos e desejos homossexuais eram bem mais numerosos do que a norma social indicava. E mais numerosos seriam ainda, os indivíduos que, alguma vez na sua vida, tiveram comportamentos e desejos homossexuais.

O reconhecimento do caráter não patológico da homossexualidade e da bissexualidade foi tardio (1990), pois o processo que tem retirado, gradualmente, a homossexualidade, a bissexualidade e a transsexualidade do gueto para o espaço público dominado pela norma, teve o seu início simbólico com a rebelião de Stonewaal Inn em 1969.

A (r)evolução que teve o seu início na inexistência social, selada com o estigma da doença, passando pela tolerância, logo que ocultada do espaço público até à aceitação da pessoa, só se deu graças ao ativismo e ao orgulho que retirou (e continua a retirar) a homossexualidade, a bissexualidade e a transsexualidade do gueto para a rua, onde todo(a)s circulam. Em suma, a reivindicação e a conquista de direitos só é possível se for visível e coletiva. Por outro lado, tudo o que se limita ao espaço privado (escondido) e ao individualismo não sobrevive e, mais cedo do que tarde, volta ao gueto e à inexistência.

As marchas LGBT são acusadas de nada servirem e, na opinião de algumas pessoas, de até serem contraprocedentes, mas esse é um anátema que não lhes é exclusiva, pois são exatamente as mesmas acusações de que são alvo todas as manifestações de caráter reivindicativo.

Não podemos concluir que as grandes manifestações de 15 de setembro de 2012 não serviram para nada, pois até fizeram com que um governo com maioria absoluta recuasse na sua intenção em aumentar a contribuição dos trabalhadores para a Segurança Social.

Mas podemos viajar mais no tempo e regressar ao período entre 1974 e 76, pejado de manifestações responsáveis pela consagração do salário mínimo nacional, da extensão a todos os trabalhadores dos subsídios de férias e de Natal, do subsídio de desemprego, direito à greve, licença de parto, proibição de despedimento sem justa causa e regulamentação de indemnizações por despedimento.

Não esqueçamos a rebelião de Stonewall Inn e todas as marchas LGBT que tem ocorrido por todo o mundo, incluindo na nossa Região, mesmo que contem com poucos participantes. O que faltou em número não faltou, com certeza, em coragem, crucial para a afirmação dos direitos do(a) homossexuais, bissexuais e transsexuais que são também direitos humanos.

Razões que reforçam a necessidade de quem está na sombra e desagregado de vir para a rua e mostrar que existe, tem direitos e não tem de estar condenado à tolerância, gentilmente concedida, se só tiver direito de expressar aquilo que sente em espaços circunscritos, pois mesmo que pareça uma evolução, essa evolução, mais cedo do que tarde, retirará o pouco que foi conquistado.