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Merkel: a mentira é uma arma

Angela Merkel afirmou, num evento público promovido pela confederação das associações patronais alemãs, que “Portugal e Espanha têm demasiados licenciados”. Ora, segundo o semanário Expresso, e de acordo com os dados do Eurostat relativos a 2013, Portugal tem 17,6% de licenciados, enquanto a Alemanha regista 25,1%. No conjunto dos 28 países da UE, a taxa situava-se em 2013 nos 25,3%. A percentagem de portugueses com licenciatura está pois bem abaixo das médias quer alemã, quer europeia.

O que podemos então ler nestas declarações de Merkel? Claramente que, para a chanceler alemã, o interesse é manter e aprofundar, nos países periféricos do sul, uma economia baseada na mão-de-obra não qualificada, que não chegue nunca ao patamar de desenvolvimento da Alemanha; é manter neles um baixo nível de formação que não possa nunca vir a competir com o do seu país; é garantir mercado, nesses países, para os seus produtos de valor acrescentado (mais submarinos de alta tecnologia?). Podemos ainda juntar esta sua declaração a várias outras anteriores, como a da necessidade de reduzir as férias e aumentar a idade da reforma dos portugueses, para perceber qual a mensagem que Merkel quer fazer passar: a crise económica e social dos países periféricos (Portugal, Grécia, Espanha) é, na versão oficial alemã, culpa dos “preguiçosos” do sul. Euro disfuncional, desmantelamento do Estado Social, austeridade que mata? Nada disso! O que temos por cá é licenciados a mais…

Resta dizer, como António Cruz Serra, reitor da Universidade de Lisboa, em resposta à miserável declaração de Merkel: “A Europa tem excesso de líderes que não estão à altura do projecto europeu”.