A minhoca que se está a infiltrar na maçã

Ainda na digestão dos resultados eleitorais, estive estes dias a observar os resultados e a analisar os ‘porquês’ dos mesmos. Não há sintomas de azia e não vou “arrotar” à toa, mas, para além da problemática da abstenção e da esmagadora vitória de Marcelo Rebelo de Sousa, o visível crescimento da extrema-direita foi o outro fenómeno que marcou a noite do passado dia 24.

Portugal está a acompanhar as tendências europeias e mundiais: o surgimento de um “messias demagogo populista” dos lados mais perigosos da direita. O senhor que eu estou a insinuar (e que o leitor está a assimilar) tem-nos acompanhado nos últimos tempos, por isso esta parte não é novidade nenhuma. A verdadeira novidade aqui foi ver explicitamente os frutos que têm sido semeados através de todo o tipo de discursos e plataformas, com o intuito de chegar aos portugueses.

Eu sabia que de certa forma este senhor teria um resultado bastante favorável, mas a minha esperança democrática ou a bolha político-social onde eu vivo fez-me ser um pouco “ceguinho”. Senti um misto de tristeza e desilusão com a percentagem e os números de votos a nível nacional, e a intensidade destes sentimentos foram ainda maiores quando se verificaram os resultados por distrito, concelho e freguesia.

Depois destas presidenciais, obtive uma real certeza: apesar de haverem bastantes fascistas dentro do eleitorado do CHEGA e do seu respetivo líder, a grande maioria deste eleitorado não defende a índole ideológica que caracteriza este partido e este indivíduo.

Todo o tipo de partilha  de ideias superficiais que se caracterizam pelo sentido de promessa, mudança e antissistema fazem com que o português descontente, que está cansado e farto do rumo político pelo qual os principias partidos nos têm levado, ponha o seu sentido de voto nesta “frescura” que lhe é correspondida (com bastante cheiro a mofo).

Adicionando isto a uma falta de consciência política derivada de inúmeros aspetos que convergem com o que foi dito acima, cria-se um ‘mix’ perfeito para a atração e a consequente ascensão da extrema-direita.

Demograficamente vemos que o maior foco e os maiores resultados percentuais deste tipo de eleitorado surgem nos distritos do interior do país. Zonas estas que têm sido marcadas pelas consequências da diminuição da população e do envelhecimento da mesma como o sentimento de esquecimento derivado da falta de serviços e infraestruturas que são importantes na obtenção de uma melhor qualidade de vida. Também vemos grande adesão destes eleitores específicos em localidades com uma considerável presença da comunidade cigana, sabendo que uma das bandeiras do “salvador da pátria” e do seu partido é a questão desta etnia.

A verdadeira lição que temos que retirar de todo o processo de populismo e retórica do senhor Ventura (finalmente consegui dizer o nome dele), e da realidade que nos foi verdadeiramente apresentada na noite das eleições, é a seguinte: não nos podemos ficar com as acusações e as ofensas aos cidadãos que colocaram a cruzinha no André, pelo contrário, temos que consciencializá-los de como é o programa eleitoral e partidário do Chega e quais são os ideais que estão escondidos no lençol de uma falsa salvação. Nunca foi tão importante a militância, a organização e a informação para que se possa chegar às pessoas, pois estas são muito importantes para as perdermos para o lado escuro da história.

O fascismo está bem vivo e, apesar de aparecer sob novas formas e por novos meios, ele vem com “pezinhos de lã”.