Continuamos a chamar-lhes "acidentes", como se fossem inevitáveis. Como se fossem uma fatalidade da natureza. Como se uma criança atropelada fosse comparável a uma tempestade ou a um sismo.
Mas a maioria das mortes na estrada não resulta do acaso. Resulta de escolhas: da velocidade que permitimos, do desenho das ruas, da prioridade que damos ao automóvel e da forma como aceitamos que o perigo faça parte da paisagem.
Hoje, o maior perigo que enfrentamos no espaço público tem quatro rodas. Durante décadas, os automóveis cresceram. São mais largos, mais pesados e, sobretudo, mais altos. Vendem-nos carros cada vez maiores nesta sociedade de consumo insaciável, é preciso mais e mais e maior, mas depois, somos nós humanos que estamos a ficar mais pequenos.
Quem está cá fora de um automóvel está cada vez mais exposto. Os números confirmam esta realidade. Em Portugal continuam a morrer centenas de pessoas por ano nas estradas, um desempenho que continua pior do que a média europeia. Quando olhamos para peões e ciclistas, percebemos quem suporta verdadeiramente o risco. Entre 2022 e 2024 morreram em Portugal 327 peões e 94 ciclistas em acidentes rodoviários, a maioria dentro das localidades.
Apesar disso, a resposta política parece caminhar no sentido oposto. Em vez de reduzir o perigo, discute-se obrigar os ciclistas a usar capacete. O capacete pode reduzir lesões em determinadas quedas. Ninguém discute isso. Mas não impede que um automóvel de duas toneladas embata numa bicicleta. É como responder a um incêndio distribuindo máscaras contra o fumo.
A experiência internacional mostra, aliás, que a obrigatoriedade do capacete tende a reduzir a utilização da bicicleta para deslocações curtas, retirando pessoas das ruas, diminuindo a mobilidade ativa e reduzindo um efeito importante: quanto mais pessoas andam de bicicleta, mais seguras tendem a tornar-se as ruas. Ao mesmo tempo, a maioria das mortes de ciclistas resulta de colisões com veículos motorizados.
Levando esta lógica ao absurdo, porque não obrigar também os peões a atravessar a passadeira de capacete?
A resposta parece evidente. O problema não está na cabeça dos peões. Nem na cabeça dos ciclistas. Está na velocidade e na massa do veículo que os pode atingir.
Se queremos realmente reduzir as mortes na estrada, existe até um lugar onde o uso obrigatório do capacete teria maior eficácia estatística: dentro dos automóveis. Afinal, é aí que ocorre o maior número de impactos. Mas ninguém propõe essa medida porque já percebemos que a melhor proteção não é colocar equipamento nas pessoas; é evitar que o choque aconteça. É exatamente isso que fazem as cidades mais seguras. Reduzem a velocidade. Criam zonas de 20 ou 30 km/h junto às escolas. Alargam passeios. Plantam árvores. Constroem passadeiras elevadas e bem iluminadas. Desenham ruas onde o automóvel percebe, naturalmente, que não é o único utilizador. A velocidade faz toda a diferença. Um peão atropelado por um veículo a 30 km/h tem uma probabilidade de sobrevivência muito superior à de um atropelamento a 50 km/h. Cada quilómetro por hora acima do limite aumenta significativamente o risco de acidentes fatais.
Não precisamos de proteger melhor as pessoas do perigo. Precisamos de diminuir o perigo. Essa é a diferença entre uma cidade feita para automóveis e uma cidade feita para pessoas. E é essa cidade que a Horta merece ser.