A instauração de regimes de natureza fascista, no século passado, foi uma resposta a uma das crises cíclicas do capitalismo, mais concretamente a que ocorreu na década de 20. Foi, à época, a forma encontrada para que o mercado se pudesse abastecer de mão-de-obra barata, sem direitos e facilmente descartável. É claro que o cumprimento de tal objetivo não se coadunava com as liberdades e garantias de um sistema democrático.
Atualmente, vivemos as consequências de mais uma crise global do capitalismo. É certo que, por enquanto, o Estado de Direito encontra-se preservado, mas não podemos, nem devemos sossegar perante sinais que nos devem servir de alerta para a fragilidade da nossa democracia, de quando em quando, atacada por uma ideologia hegemónica que se confunde com a própria democracia mas que é intrinsecamente antidemocrática, por não hesitar em colocar em causa direitos fundamentais, só para garantir a sua sobrevivência.
No dia 1 de maio, trabalhadores, desempregados e pensionistas deveriam questionar-se sobre a motivação de uma política que tem como seu centro ideológico, a descredibilização do pensamento, da atividade política e do exercício da cidadania. Uma ideologia que se reafirma pela honradez do trabalho desprovido de qualquer carga reivindicativa, plasmada na lógica do senso comum de que «a minha política é o trabalho».
Tal como nas ditaduras fascistas que grassaram o ocidente no século passado, o medo espalha-se para dividir quem vive do seu trabalho ou de quem está desempregado. É a divisão que desfaz qualquer força reivindicativa e destrói o movimento sindical.
Temos ainda um sistema democrático que pode, e deve, ser aperfeiçoado, mas a sua constante imperfeição não deve levar à sua destruição, em nome do saudosismo que nos pretende convencer que será inevitável voltarmos à miséria, à sobre-exploração do trabalho e à elitização do acesso à educação e, até mesmo, à saúde. Tal e qual como o país que sacrificava os seus cidadãos numa guerra colonial que nos roubou durante 13 anos, uma parte significativa do orçamento de Estado e milhares de vidas, só para que uma elite vivesse acima das nossas possibilidades. Agora, é em nome de uma dívida indigna, de parcerias público-privadas ruinosas e outros negócios escabrosos para o erário público que as pessoas sofrem para que uma elite continue a viver acima das nossas possibilidades.
Não vivemos numa democracia económica, mas continuamos a ter uma democracia política que sofrerá atentados à sua sobrevivência, se a soubermos utilizar, pois se o voto de nada servisse, então não se percebem os motivos de preocupação das instituições internacionais, sem legitimidade democrática, sempre que um povo considera alternativas em detrimento de alternâncias.
Em suma, quem coloca em causa a liberdade sindical, o direito à greve, a utilidade das eleições, a legitimidade da política e dos partidos e anseia pela delapidação de quem trabalha, pela miséria de quem trabalhou, pela desqualificação das gerações vindouras, então poderá afirmar, convictamente, que no tempo de Salazar é que era bom.