2020 foi ano de eleições legislativas regionais nos Açores e foi o ano desta pandemia que agora é a nossa constante sombra. Foi o ano em que os açorianos residentes em mobilidade puderam votar fora da sua terra-natal pela primeira vez para as eleições regionais e foi o ano em que a extrema-direita entrou nestes bocados de rocha e pasto no meio do Atlântico.
Ao longo da segunda metade deste ano viu-se (mais nas redes sociais do que nas ruas) a campanha e a luta democrática dos partidos e candidatos açorianos. Todos estes que se comprometeram a uma causa com o desejo de defender os interesses da nossa região, com o real intuito de ingressar no grande palco da política açoriana: a Assembleia Legislativa dos Açores.
Os resultados verificados foram pura e simplesmente a expressão do povo açoriano: perda da maioria absoluta do PS e a entrada de novos partidos para a assembleia regional. Apesar da abstenção ter diminuído (devido em parte ao voto em mobilidade), esta continuou elevada e olhando através da lupa podemos verificar variados fatores deste acontecimento:
- Falta de consciência política;
- Falta de formação e educação acerca das práticas democráticas;
- Desacreditação na classe política de uma forma geral;
- A representatividade política fica dedicada às classes mais altas.
Para explicar o caminho destas eleições, irei indicar o destino da mesma por um atalho que vai parar à direita: Pedro Catarino (Representante da República para os Açores) indigitou o líder do PSD-Açores, José Manuel Bolieiro, como presidente do Governo da Região Autónoma dos Açores.
O PSD elegeu 21 deputados e, para fazer frente aos 25 deputados eleitos pelo PS, este governo de direita terá ainda na sua composição o CDS-PP e o PPM. Adicionando a esta coligação vem o apoio parlamentar por parte da Iniciativa Liberal e do CHEGA.
Depois da mais breve possível explicação acerca da balbúrdia governamental açoriana apresento os meus pontos acerca do presente e futuro da minha região e lar:
- As conversações e acordos entre o PSD e CHEGA fazem-me acreditar que os interesses pelo poder se sobrepõem aos ideais “social-democráticos” do partido que veste laranja. Esta amizade sem princípios pode vir trazer um retrocesso de princípios tão grande que o Dr. Francisco Sá Carneiro poderá voltar para dar uns “calduços”.
- A intromissão de Ventura na viabilização deste governo e comentários de acusações do PS e PSD também nos traz uma questão: onde está a nossa autonomia? Vimos uma região que era esquecida por parte de Portugal continental antes de 1975, vimos nascer o Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma dos Açores e a luta de muitos açorianos (uns pela autonomia, outros pela independência), vimos a criação de muitas potencialidades em vários setores. Por isso, quando se trata de assuntos nossos, como açorianos, quem deve tratar deste assunto é quem foi eleito pelo povo açoriano (seja extrema-direita ou não).
- A entrada de dois deputados do CHEGA para a Assembleia Regional na primeira vez que este partido concorre nas legislativas regionais demonstra que os ideias e a retórica da extrema-direita de André Ventura adicionando os enormes problemas da região (como as enormes desigualdades sociais, um grande leque de beneficiários do Rendimento Social de Inserção, abandono escolar, a taxa de esperança média de vida mais baixa de Portugal etc.) e o longo governo do PS na região, que não conseguiu responder a muitos destes problemas, conseguem fazer com que este arquipélago seja perfeito para a sua popularidade. Com este governo de direita e o resultante apoio parlamentar por parte do CHEGA, algumas propostas por parte destes podem vir a ser aplicadas… e volto a frisar: acordos entre a social-democracia e a extrema-direita não fazem sentido na minha cabeça, nem na do Sá Carneiro.
Apesar de críticas ao governo que vem a caminho, espero que esta legislatura e as respostas que vão ser dadas por parte da direita à eventual crise económico-social sejam as melhores na garantia de um futuro melhor e da proteção do povo açoriano.
Para terminar, enquanto estudante deslocado açoriano e fazendo da minha voz a voz dos restantes: nós queremos ter a oportunidade de voltar a casa um dia. Muitos de nós acabaram os estudos fora da região e não viram oportunidades para voltar nestes últimos anos, e com a situação que se avizinha não temos grandes expetativas.
Apesar de eu ver uma grande nuvem negra no meu ilhéu do Atlântico, só espero progresso e espero estar nesse ilhéu para conseguir ver os raios de luz.
Deixo uma estrofe do poema “Queixa das Almas Censuradas” da poetisa açoriana Natália Correia (poema este que foi posteriormente musicado por José Mário Branco).
“Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro.”