O 'bailinho' do costume

Há 15 dias atrás, o Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros proferiu declarações que, não só o envergonham a ele, como provocam em nós um sobressalto de indignação.

O Senhor Ministro deve, por isso, uma inequívoca explicação aos Açores. E deve-a também a todo o elenco governativo que integra, o qual, liderado pelo Primeiro-Ministro, assumiu compromissos sérios e urgentes para esta Região e para Ilha Terceira. O facto do Senhor Ministro dizer, num dia, uma coisa e, no dia seguinte, exactamente o seu contrário, não é retratação alguma. É, antes, um acto de pura demagogia, mal disfarçado de taralhoquice.

As referidas declarações configuram um absoluto desrespeito para com a Região Autónoma dos Açores, suas populações, órgãos de governo próprio e respectivas decisões, tendo algumas delas merecido a aprovação unânime de agentes políticos, económicos e sociais regionais.

Contudo, elas acabam por revelar o que, seguramente, pretendiam esconder, ou seja, a verdadeira razão do desinteresse da administração norte-americana pela completa limpeza da imensa pegada ambiental (e ameaça à saúde pública) de que foram e continuam a ser responsáveis, na ilha Terceira.

Aparentemente, o MNE e o Governo da República estão mais preocupados em cair nas boas graças da Administração Trump, do que em defender os Açores do uso, abuso, poluição e contaminação a que uma das ilhas do nosso arquipélago tem estado sujeita, ao longo de décadas.

Aparentemente, não importa a contaminação dos recursos hídricos da Ilha Terceira (derivada do uso de estruturas de armazenamento de combustíveis utilizadas pelo destacamento norte-americano sedeado na Base das Lajes), contaminação assumida pelo próprio poluidor, há muitos anos.

O que, verdadeiramente, importa é garantir que a Base das Lajes volte a assumir o estatuto de uma praça de guerra, ao serviço de interesses bélicos espúrios, muitos deles à revelia do mais elementar bom senso ou direito internacional.

E para que tal seja possível, o Governo da República está disponível para sucumbir a todas as exigências do Senhor Trump: nem descontaminação, nem reabilitação das zonas já identificadas como poluídas e de outras descritas como presumivelmente contaminadas, nem remoção de todas as infra-estruturas (militares ou outras) desactivadas e ainda existentes, fora do perímetro militar, ao nível do solo e subsolo da ilha Terceira, nem um plano B alternativo, capaz de transformar a referida Base numa poderosa alavanca para o desenvolvimento económico dos Açores, desde que desmilitarizada e pacificada.

Ao mesmo tempo, a ligeireza com que o Governo Regional reagiu a estas tão graves e ofensivas afirmações, não auguram nada de bom para os Açores e para a ilha Terceira. De facto, ao aceitar o privilégio dado às prerrogativas bélicas da Base das Lajes, o Governo Regional presta um mau serviço aos/às Açorianos/as e aos/às Terceirenses, na medida em que enfraquece a posição negocial da Região, invalidando a legitimidade e a justa ambição de transformar a nossa posição geoestratégica, num motor ao serviço do desenvolvimento económico, social e científico dos Açores.

É, por isso, urgente afirmar, sem qualquer tipo de tibieza o seguinte: por forma a não atrasar mais um processo de descontaminação que, neste preciso momento está parado, é responsabilidade do Governo da República assegurar a continuidade do referido processo, assumindo a totalidade dos seus custos.

Perdoar ou não as custas ao poluidor será uma decisão sua.

Garantir a defesa e protecção do ambiente, da natureza, do território, da paisagem, dos recursos naturais e hídricos da ilha Terceira ou de qualquer outra ilha dos Açores é uma exigência nossa!

Doa a quem doer!