Inauguraram a variante à Madalena, dentro de pouco tempo será a variante à Horta, variantes com três faixas largas e viadutos, como se o futuro dependesse da rapidez. Como se o objetivo fosse andar mais depressa, e não viver melhor.
Queremos mesmo ir mais rápido? Para onde? Moramos no meio do Atlântico, num país do sul da Europa onde o tempo tem outra densidade, porque é que continuamos a querer seguir o sonho americano dos anos 50 que vemos nos filmes? Aqui no Faial temos um privilégio cada vez mais raro, temos tempo. O que fazer com ele?
Muitos de nós ficam uma manhã inteira (ao sábado) a fazer as compras da semana, no comércio local, no mercado municipal, encontrar amigos, conversar na rua, passear sem pressa. É um tempo cheio, vivido. As compras para a semana poderiam ser feitas em vinte minutos numa superfície comercial: rápido, eficiente, funcional. Mas será isso que procuramos? Poupar tempo para quê? Queremos reduzir a vida ao mínimo necessário, ou queremos vivê-la por inteiro?
Há exemplos que mostram outros caminhos. Em Valência, no antigo leito do rio Turia, existia o espaço perfeito para uma via rápida que permitiria atravessar a cidade em poucos minutos. Colocou-se a opção em cima da mesa, discutiu-se durante vários anos o que fazer. No final, a decisão foi outra: construir um parque urbano. Hoje, demora-se mais tempo a entrar e a sair do centro. Usa-se mais o transporte público, porque sem vias rápidas é ele que melhor responde às necessidades. E, talvez mais importante, as crianças cresceram a brincar todos os dias nestes enormes jardins no antigo leito do rio, a tocar nas plantas e a viver o espaço público em conjunto com outras crianças, em vez de andarem todos os dias no banco de trás de um carro.
Ao mesmo tempo, assistimos a uma perda silenciosa de valores. Que caminho segue a Horta? Uma cidade aberta ao mundo, mas que agora se fecha. Fecha-se quando constrói uma circular que não é nem rua nem avenida, é uma via rápida que não convida à vida, que não poderá ser urbanizada nunca, que será sempre um limite e que acabará por gerar subúrbios em vez de comunidade.
Fecha-se quando encerra espaços de cultura, como o Banco das Artes, retirando lugares de encontro, de pensamento, de criação.
Fecha-se quando transforma um espaço coberto, excelente, no centro da cidade, num estacionamento para treze automóveis, como se a cultura e as ideias novas valessem menos do que estacionar uns metros mais perto.
Fecha-se quando empurra as pessoas para dentro de casa ou para dentro dos seus carros, reduzindo a cidade a um conjunto de trajetos funcionais, sem vida entre eles.
E, assim, pouco a pouco, deixamos de viver a cidade para apenas a utilizar.
Uma cidade não é uma infraestrutura. É uma relação.
Que cidade queremos? Que vida queremos viver?
Queremos uma cidade que se atravessa depressa ou uma cidade onde se fica? Queremos espaços que aproximam ou vias que separam? Queremos o ruído constante da pressa ou o silêncio habitável do tempo?
Talvez esteja na altura de reaprender com o mar que nos rodeia. De perceber que nem tudo o que anda mais rápido chega mais longe. E que, por vezes, o verdadeiro desenvolvimento não está em acelerar, mas em saber escolher o rumo.
Porque uma ilha não precisa de mais rotundas desenhadas para fluir tráfego de 10mil carros por hora (numa ilha com 15mil habitantes)
O Faial precisa de melhor rumo.