O destino turístico eugénico

A Ordem dos Psicólogos iniciou uma campanha contra a estigmatização da doença mental. Uma campanha que pode parecer desfasada relativamente a uma época e a uma sociedade supostamente alinhadas com princípios e valores que se distanciam de práticas outrora comuns, até porque longe vai o tempo em que o pessoal convencionado como normal incluía no seu ritual domingueiro, tal como se de uma ida ao circo ou ao jardim zoológico se tratasse, uma visita ao hospício dos doidos, para num exercício de voyeurismo perverso que alimenta a pretensa normalidade, sossegar o seu desassossego. 

Nesses tempos, os hospícios serviam para esconder, isolar ou exibir aqueles considerados pela sociedade como 'doidos', mas sempre enjaulados para proteção dos espetadores, aquando das exibições domingueiras. Espetadores esses que se arrepiavam e satisfaziam a sua curiosidade perversa perante os tiques dos pobres proscritos.

Em pleno século XXI, e pela nossa ilha, há quem se incomode com os doidos e com os mendigos, não porque queira viver numa sociedade mais inclusiva e justa, mas porque está preocupado com a segurança dos normais automobilistas, mesmo que alguns (não tão poucos) acelerem como doidos. Estão pois, receosos com a possibilidade de algum enclausurado se atirar para a estrada e espatife o automóvel de algum ser normal incauto.

No século XXI, o século do futuro, na Hungria, país membro da União Europeia, a mendicidade encontra-se, recentemente, criminalizada pois, tal como a loucura no século XIX e inícios do século XX, incomoda quem acredita que a pobreza é uma fatalidade, a riqueza uma virtude e a desigualdade uma necessidade.

Por cá, parece que há quem defenda uma solução, mais ou menos, eugénica, ao nível do extremismo húngaro, por considerar a mendicidade incómoda, pois dá ‘mau ar’ à cidade, mesmo se a cidade estiver infestada por térmitas que corroem, literalmente, o nosso edificado histórico (e não só), sem esquecer uma área urbana de dimensão considerável abandonada e devoluta, só porque uns normais iluminados pela lucidez da esperteza convenceram uns outros normais que podiam construir coisas muito bonitas, modernas e avançadas. Outros aguardam por propostas milionárias, que teimam em não surgir, para venderem umas ruinas que escondem ratos e pombos. Enquanto nada se resolve, lá se vão tapando os buracos das fachadas para disfarçar o desmazelo ou a falta de coragem de quem não quer incomodar os interesses dos ‘normais iluminados’, na esperança de que os turistas não reparem, numa solução semelhante àquela indicada para aqueles a quem gostam de categorizar, em desconsideração total pelos contextos individuais e sociais, como doidos e mendigos, os quais, na excelsa opinião de uns tantos, bem podiam estar disfarçados, escondidos ou enclausurados, em nome da ilusão das aparências.

Enfim, estaremos perante sinais dos tempos ou da doidice dos normais?