O 'low' pode sair 'high'

Será que os arautos do liberalismo aéreo acreditam que terão resolvido o problema dos transportes aéreos na Região? Ou, por outro lado, estão a participar e a incentivar uma política que o agravará, e contribuir para o desmantelamento, daquela que poderia ser, e deveria ser, parte essencial da resolução do problema, a SATA?

Como é que a liberalização será melhor para o utente, se é o utente quem tem de adiantar o custo total da passagem para, só depois (sabemos lá quando…), ser reembolsado, quando antes, no regime de obrigações de serviço público, eram as companhias aéreas que adiantavam o custo total?

Porque é que, no âmbito das obrigações de serviço público, as companhias aéreas low-cost sempre recusaram a fixação de preços máximos, quando alegam que praticam, durante todo o ano, os preços mais baixos do mercado?

Ninguém explica, de forma convincente, como se farão os encaminhamentos para as companhias aéreas que oferecem termos e condições, em que que se assumem como transportadoras ‘ponto-a-ponto’ e que não se responsabilizam por quaisquer voos de ligação quer estejam em causa voos da própria companhia, quer estejam em causa voos de outras companhias.

Porque é que quando alguém coloca o problema do preço da bagagem de porão, nas companhias aéreas low-cost, é logo desconsiderado como se fosse um desmancha-prazeres, pois são ainda 70€ de custo acrescido (ida e volta – para bagagem de porão até 20 kg)?

Porque é que Michael O’Leary, da Ryanair, está, agora, interessado em voar para os Açores, quando explicava, em 2007, que não estava interessado, por ser um destino demasiado longínquo, em que o tempo que demoraria a fazer uma rotação para os Açores, em que transportava 300 passageiros, daria para fazer 3 rotações para Madrid, em que transportaria 1000 passageiros?

Porque é que Michael O’Leary está, agora, interessado em voar para os Açores, quando explicou, em 2012, que o estabelecimento de uma rota para a Região só faria sentido, se tivessem uma base operacional em Lisboa (o que veio a acontecer), mas que, mesmo assim, teria mais interesse em estabelecer rotas para a Irlanda, Reino Unido, França, Alemanha e Espanha, por preços médios de 19€ ou 29€, que permitiriam transportar um maior número de passageiros?

Como é que não haverão compensações financeiras (ou não financeiras), às companhias aéreas low-cost, por parte da Região, se essas mesmas companhias vendem um produto (determinado número de passageiros) aos gestores dos aeroportos e/ou comunidades regionais ou locais, a troco de contrapartidas (por exemplo: 4 milhões de euros em Carcossone e Nimes, 7 milhões de euros em Beauvais, etc.)?

Porque é que ninguém refere que estas companhias aéreas (low-cost) foram objeto de procedimentos judiciais por violação de legislação nacional e comunitária pelo Tribunal de Contas francês, Tribunal de Justiça Europeu e foram sujeitas a procedimentos judiciais na Bélgica (Charleroi), França (Aix-en-Provence), Itália (Roma), Espanha e Noruega?

Estas são questões que ficam por responder, por serem inoportunas para quem depositou toda a esperança no liberalismo como a melhor forma para defender um serviço público. Porque o mais importante é vender a ideia de que os Açores são nove ilhas e duas (ou mais) companhias aéreas low-cost.