Em jeito de provocação inaudita, Pedro Passos Coelho afirmou, há poucos dias atrás, que bom mesmo seria baixar o salário mínimo nacional mas, não o fazendo (por agora), então há que mantê-lo bem mínimo, ou seja, tal como está. Em nome da ‘competitividade das empresas’, pois claro, e também por causa do ‘insuportável aumento de custos para as empresas’.
Acontece que, face ao gigantesco descalabro económico e social que se vive, no nosso país – não tanto por causa da ‘crise’ mas, claramente, em consequência das medidas que o governo da república tem vindo a implementar -, são cada vez mais as vozes que se levantam contra o congelamento do salário mínimo - o mais baixo da zona euro, é bom recordar. E o coro, por esta altura, inclui, tanto economistas e fazedores de opinião insuspeitos de qualquer simpatia pela esquerda, como até – pasme-se! – o próprio Presidente da República, cujas antipatias são bem conhecidas.
E nem precisamos de perder muito tempo a lembrar as escandalosas amnistias fiscais de milhões de euros para alguns, ou os fabulosos lucros do sector financeiro, com a compra de títulos da dívida portuguesa, para outros. Basta reconhecermos que a política de ‘dois pesos, duas medidas’ domina os argumentos e a prática do regime, juntarmos a tudo isto um pouco do mais elementar bom senso e todos/as concluiremos que aumentar o salário mínimo, não só é o mínimo que poderemos fazer por quem, trabalhando duramente, permanece condenado à pobreza, como também será um grande e inteligente contributo para a dinamização do nosso mercado interno, ou seja, para o consumo, o crescimento e a economia em geral.
Asiatizar as relações laborais para além da decência mínima é, sem dúvida, o objectivo da troika e de quem lhe presta uma repugnante vassalagem. Mas se nos queremos salvar da tragédia reinante, o caminho só pode ser, exactamente, ao contrário. Também por isso, é extraordinário mas esclarecedor que Vasco Cordeiro, presidente do PS/A e do governo regional, recuse o aumento do salário mínimo, nos Açores, com base no argumentário de Passos Coelho e à revelia da proposta do seu partido, a nível nacional. Afinal, defendemos os Açores ou sucumbimos aos interesses que a troika defende?!