O Presidente que não joga com a democracia toda

Não sei o que merece maior indignação, se o teor das declarações do Presidente da República, que discrimina os portugueses consoante as suas convicções políticas, ou as tentativas de dar outra interpretação às suas declarações?

Se um governo suportado por uma maioria absoluta constituída por minorias vencidas é considerado pelos bafejados pelo poder, por ordem e graça do Presidente da República, um autêntico golpe de Estado, então o que dizer de um governo que elaborou orçamentos de Estado ao arrepio da Constituição?

O maior problema, para o Presidente da República, não é termos minorias que compõem uma maioria, mas antes uma larga maioria que se compromete com o cumprimento da Constituição. Ora, esse é um sacrilégio para um Presidente da República que mostra estar mais comprometido com Tratados internacionais do que com a Constituição, caso contrário, e se seguisse as mesmas premissas mas relativamente ao cumprimento da Constituição, então nunca indigitaria um governo que já deu provas de desconsiderar a Constituição.

O Presidente da República tem horror acerca da possibilidade de um governo subjugado ao parlamento, ao ponto de preferir um governo assente numa minoria absoluta – mesmo que tenha ocupado o primeiro lugar no pódio eleitoral – a um governo de maioria absoluta de incidência parlamentar, porque entende que é a opção que reúne as melhores condições para respeitar, não a Constituição, mas sim os compromissos internacionais que tanto preza.

Se o Presidente da República negasse a indigitação de um governo PSD/CDS, porque deu prova de não cumprir a Constituição, seria trucidado por aqueles que o defendem na ostracização que faz de uma governação que não pretende prescindir de discordar com compromissos internacionais, mas que encontrou convergências que tornam possível a viabilização de um governo de esquerda que defenda salários, pensões e emprego, sem colocar em causa os tais compromissos internacionais.

O pensamento único europeu fez com que se repetisse na Irlanda o referendo sobre o Tratado de Lisboa até que se obtivesse o resultado desejado. Assim está o Presidente da República que, ao que tudo indica, criará as condições para que se repitam as eleições até conseguir obter a configuração parlamentar desejada.

É verdade que fiquei indignado com as declarações profundamente antidemocráticas do Presidente da República, mas sei que isso só foi possível, porque vivemos numa democracia tão genuína que até permite um Presidente da República que não joga com a democracia toda.