Depois de duas semanas em que abundaram as análises e comentários a sondagens diárias, chega a altura de analisar os resultados eleitorais. Não de um ponto de vista isento, o que assumo desde já, não fosse este um artigo de opinião, mas a partir de uma perspetiva ideológica.
Começo pela abstenção. Julgo que interessa ter em conta, face à divergência aparente entre a abstenção registada e a perceção, in loco, da afluência de eleitores às urnas, o recenseamento através do cartão de cidadão de eleitores que não residem sequer no país (emigrantes). Trata-se um problema de difícil resolução, mas que tem de ser resolvido, e que nos Açores assume proporções muito significativas, segundo estimativas conhecidas. Não será, por acaso, que os Açores foram a Região do país com mais abstenção e justamente a Região com mais emigrantes.
Temos também a abstenção como forma de penalizar a governação, mas que, como ficou demonstrado pelos seus níveis sucessivos e crescentes, está longe de cumprir o seu objetivo, e chega mesmo a ter o efeito contrário.
A coligação que suportou - e que resistiu, inclusive, a uma revogação de uma demissão irrevogável e a manifestações populares de desagrado – a governação dos últimos quatro anos perdeu votos, mandatos e a maioria absoluta que lhe permitiu conduzir um país inteiro para uma glorificação de pobreza, só vista durante o Estado Novo.
O BE reforçou a sua representação parlamentar e mais do que duplicou os resultados obtidos em 2011. E dos vários vaticínios que o condenavam a passar do partido da «vanete» para o partido do táxi, passou a ser o partido das duas «vanetes» e um táxi, ou o partido do autocarro. Conseguiu atingir tal feito, não por acaso, não por simpatia dos seus candidatos, mas porque soube apresentar propostas claras e genuínas, sem malabarismos e sem hesitações. Defendemos, sem reservas, o Estado Social, as pensões, os salários e o reforço dos direitos laborais. Para os Açores, o BE propõe uma mudança de paradigma económico-social, a partir do aproveitamento e do fomento da economia do mar, assim como da nossa posição geoestratégica, em prol dos interesses dos açorianos e açorianas.
O PS continuou, muito à semelhança daquilo que tem feito nos Açores, a tentar vender um programa com austeridade leve (soft) como se os portugueses, incluindo os açorianos, só pudessem escolher entre entrar num carro que vai a 100km/h ou noutro carro que vai a 50km/h, mas ambos em direção ao mesmo precipício. O corte das pensões (congelamento das pensões com o efeito da inflação), precariedade dos contratos de trabalho (contrato único de trabalho e sem soluções para acabar, de uma vez por todas, com os falsos recibos verdes), o plafonamento das pensões muito mal explicado e com consequências devastadoras para a Segurança Social, leituras criativas do Tratado Orçamental, entre muitas outras propostas tornam tão difícil, para António Costa, aceitar o desafio lançado pelo BE de um compromisso, à esquerda, que defenda as pensões, o Estado Social, os salários e os direitos laborais. Afinal de contas, um «caderno de encargos» de tão fácil execução para quem pretende governar à esquerda.
O BE, antes de sequer conhecer o número total de deputados que seriam eleitos, começou a cumprir o prometido e adiantou que não aprovaria um programa de governo da coligação PSD/CDS. O PS, por António Costa, depois de durante a campanha ter desprezado (e bem) as intenções eleitorais do PSD/CDS, não foi capaz de se comprometer com o chumbo de um programa que continuará a depauperar os portugueses. Suspeito que estejamos à beira de mais uma ‘abstenção violenta’ ou que teremos um governo de bloco central, um sonho para Francisco Assis, e a homogeneização assumida e reconhecida dos chamados partidos do «arco da governação», numa lógica de pensamento único que só poderá ser evitada se os eleitores que pretendem castigar quem não cumpre as suas propostas eleitorais começarem a fazer parte da alternativa.