Acreditar no Pai Natal pode ser uma demonstração de ingenuidade ou de inocência, mas também pode ser um exercício de fé laica, pois só mesmo a fé mantém viva a esperança de que o novo líder do PS, quando (e não 'se') conquistar o poder (vulgo 'ir ao pote') terá a coragem e a determinação para mudar a vida de quem foi roubado por um governo que também prometeu um país diferente, mas que se limitou a aprofundar uma série de políticas causadoras do empobrecimento dos portugueses.
O PEC IV, uma das últimas propostas do PS enquanto governo, que marcou o início audacioso do que seriam as políticas austeritárias que levariam o povo de sacrifício em sacrifício até à salvação bancária final, foi reprovado pelo PSD e CDS, que estavam na oposição, mas foi retomado e reforçado, logo que conquistaram o poder, graças à vã esperança que os portugueses tiveram de que, finalmente, deixariam de ser espoliados.
O PS tem uma nova liderança, para muitos um novo alento. Parece-me que será uma liderança mais requentada do que refrescada ou arejada, em que a imagem e a semântica é o alfa e o ómega tal como o vermelho garrido da vestimenta e o sorriso contagiante de um Pai Natal que mesmo que atravesse o céu num trenó puxado por renas parece tão real como as crianças imaginam ser.
A colocação de voz, as pessoas que rodeiam e apoiam a nova liderança e o 'soundbyte' oco fazem crer que estamos perante a possibilidade de mudança. Contudo, no essencial, ficamos sem saber se, quando o séquito for reunido para reinar o país, os salários serão repostos, se a sobretaxa de IRS será extinta, ou se até a tão consensualizada reestruturação da dívida, que tem merecido o apoio de personalidades com as mais diversificadas referências político-ideológicas, será sequer considerada. A nova liderança do PS ambiciona convencer o povo da possibilidade de conciliar o Tratado Orçamental com a defesa do Estado Social e com a necessidade de investimento público para incrementar a economia nacional. Para tal bastará, segundo a sapiência altiva do novo líder, fazer uma nova leitura daquilo que é tido sempre como mais um, entre muitos tratados europeus, sempre muito complexos para serem referendados pelo pobre e indefeso povo. Vamos então acreditar que esta 'nova leitura' fará maravilhas pelo Estado Social tal como já acreditámos que o Pai Natal conseguia distribuir prendas por todo o mundo, numa única noite?
E ainda querem que não só acreditemos nesta miragem, como nos desafiam a fazer parte da ilusão que será vendida ao povo, na próxima campanha eleitoral, de que agora é que é. Agora é que o PS (re)descobriu que é o povo quem mais ordena e está disponível para construir políticas alternativas. Uma questão impõe-se: O que dirá o povo quando, mais uma vez, concluir que foi enganado? Que, afinal, o melhor que poderá ter é uma austeridade light e que está condenado a viver num país pequeno, pobre e sem perspetivas de futuro, tão somente porque é essa a nossa sina. Pobres, mas honrados para trabalhar e admirar os donos disto tudo.
Bem sabemos que se nos deixarmos abraçar por este grande PS, mais cedo do que tarde, teremos de nos calar perante acusações de sermos mais do mesmo. E antes radicalmente diferentes que condenados à indiferença total.