Acabei de receber a notícia de que António Costa, numa das suas – cada vez mais raras – incursões pela esquerda, anunciou que se o PS obtiver uma maioria, nas próximas eleições, contrariará a austeridade e as recomendações do FMI. Estaremos perante uma promessa eleitoral ou uma chantagem para «amarrar» a esquerda do PS e fomentar o «voto útil»?
Ainda bem que o PS já nos disse ao que vinha, ao divulgar o seu programa através do relatório (para parecer mais técnico do que político) “Uma década para Portugal”, pois a política do PS, naquilo que é o essencial e o acessório, não se desviará da austeridade. Como seria expetável o grande esforço do PS concentrar-se-á na transmissão da ideia de que o seu programa é uma verdadeira alternativa àquelas que são as políticas defendidas (e conhecidas) pelo PSD/CDS. Se até agora assistimos ao empobrecimento do país, o PS não propõe acabar com essa pobreza, mas sim geri-la.
O seu relatório “Uma década para Portugal” tem como referência o quadro macroeconómico defendido pelas instituições europeias, repleto de previsões irrealistas de crescimento e emprego. Portanto parte de um princípio irrealista daquilo que o PS tem, publicamente, tentado contrariar, ou seja de que a austeridade traz crescimento económico e cria emprego. No fundo, o PS quer fazer crer que é capaz de quebrar a austeridade, e, simultaneamente admitir, que a austeridade resulta. Por isso, e como não poderia deixar de ser, não consegue disfarçar que as suas medidas não são mais do que o corolário da receita da troika: salários baixos, despedimentos fáceis e descapitalização da Segurança Social, em nome da competitividade e emprego.
Assim como durante a campanha eleitoral de 2011 os programas do PS, PSD e do CDS omitiram o conteúdo do memorando com a troika, na próxima campanha eleitoral, o PS omite qualquer referência ao Tratado Orçamental, um instrumento que servirá para continuar a impor o empobrecimento e a desigualdade no país, e que foi ratificado pelo PS, PSD e CDS. Mas, se até há pouco tempo, o PS sempre que confrontado com o Tratado Orçamental defendia que seria possível fazer uma «leitura inteligente» do mesmo, nunca dando grandes explicações sobre o que isso quereria dizer, agora parece que será um fiel cumpridor e defensor de objetivos económicos e orçamentais impraticáveis, inclusive para os países que o quiseram impor como regra, a não ser que queiram reduzir o país à miséria.
Ultimamente, o PS tem reivindicado a suspensão da privatização da TAP, dada a proximidade das eleições e a consequente possibilidade de «ir ao pote da alternância», para dar a impressão de que se for Governo evitará privatizar o muito pouco que falta privatizar. Mas, mais uma vez, e pelo que podemos antecipar através do relatório ‘Uma década para Portugal’, nada nos garante que a TAP não será privatizada, até porque para termos uma ideia sobre o que defende o PS devemos considerar não só o que é dito, mas também o que não é dito, e o «não dito» inclui as privatizações e o cumprimento do Tratado Orçamental.
Parece-me que o PS, sempre que não omite, fica, desesperadamente, igual ao PSD e CDS e assusta quem ainda acredita que o PS pode ser a alternativa. O discurso dirigido aos empresários chineses por António Costa a apelar ao investimento em Portugal é um exemplo de um momento em que o omisso tornou-se claro, e criou um momento embaraçoso para a máquina do PS e um momento zen para os eleitores.