O Ministro do Mar da China esteve nos Açores, e reuniu com o presidente do Governo Regional, para logo as atenções se virarem para o futuro da base das Lajes. Estaria encontrada uma «tábua de salvação» para um dos maiores problemas económicos e sociais da ilha Terceira e da Região?
Se é certo que o culto à NATO e a reverência temerária aos norte-americanos impede sequer de pensar noutra utilização para a nossa posição geoestratégica, que não toda aquela com interesse exclusivo para os norte-americanos, o que leva, neste momento, a opinião pública, alinhada com o dictat oficial, a acreditar que a China poderá estar interessada em ocupar o espaço dos norte-americanos? Mas, mais do que isso, porque acreditam que Portugal (membro fundador da NATO - como muito gostam de lembrar) estará agora tão interessado em afrontar os seus aliados (ou senhores), ao negociar uma posição militar no Atlântico?
A acreditar na hegemonia do poder militar e diplomático dos norte-americanos, Portugal, antes mesmo que a China começasse a estudar a possibilidade de roubar espaço com interesse militar para os norte-americanos, seria impedido (ou impedia-se) de travar quaisquer relações diplomáticas com a China que tivessem tal propósito.
Parece-me que é o interesse militar que desperta logo toda a atenção da opinião pública, e que torna viável qualquer alternativa à atual utilização da nossa posição geoestratégica.
A partir da altura que são os fins militares que entram na equação do futuro da base das Lajes, já tudo é possível, até mandar os norte-americanos «às malvas» para abraçar os militares chineses. O mesmo não se passa quando se procura lançar, na opinião pública, a possibilidade de termos, na base das Lajes, ótimas infraestruturas, depois de adaptadas, para uma utilização que só poderá ser exclusivamente civil e comercial, porque incompatível com qualquer atividade militar com fins belicistas.
Uma utilização civil e comercial passível de criar mais emprego, em vez de continuarmos, impávidos e serenos, à espera que a boa-vontade norte-americana não destrua ainda mais empregos, ou na esperança de nos tornarmos, novamente, importantes, só porque os norte-americanos, com ou sem a NATO, poderão, num qualquer dia, decidir entrar num qualquer conflito que devolva nova importância ao Atlântico.
Na minha humilde opinião, o interesse da China nos Açores, não tem tanto a ver com a nossa posição geoestratégica, mas sim com a riqueza que encerra o nosso mar, mais precisamente, o seu subsolo. Portanto, é um interesse comercial e não tanto militar.
Não vamos, pois, assistir a um desembarque de tropas chinesas nas Lajes, mas sim a uma invasão, mais ou menos, silenciosa de empresas chinesas de prospeção para delapidação dos minérios com aplicações bioquímicas extremamente valorizáveis (estima-se que só a exploração de cobalto poderia render 200 milhões de euros por ano) e minerais com interesse para a indústria na área da biotecnologia e bioquímica, fruto de um regime que privatizou, por 50 anos, a exploração do nosso subsolo marinho, viabilizado pelo anterior governo da República, da responsabilidade política do PSD/CDS.
Se não lutarmos por um outro modelo legal de exploração, e se não investirmos, de forma determinante, num Centro Público de Investigação para as Ciências do Mar não conseguiremos ter um controlo efetivo sobre como se fará tal exploração, o que possibilitará, simultaneamente, a criação de conhecimento científico, nas diversas áreas implicadas, com interesse para a Região e para o país.
Não sabemos o que o Governo Regional andará a negociar com os chineses e com multinacionais, por vezes, envolvidas em prospeções à discrição, graças a regulamentações pouco ou nada criteriosas, como a que foi conduzida na Papua Nova Guiné, sem consideração pelos ecossistemas. Por isso, é importante termos um parlamento forte, com capacidade reivindicativa, para melhor exercer a sua função fiscalizadora, o que não se consegue ao atribuir uma nova maioria absoluta ao PS, nem ao deixar que CDS ou PSD se tornem fiéis de uma balança de um poder governativo minoritário do PS.