O Presidente da República brindou-nos, nas comemorações do 5 de outubro, com um dos seus discursos apaziguadores, embebidos num paternalismos a que já nos habituou, com sábios conselhos que, no seu entendimento, deveriam guiar a vida política do nosso país. E apontou o descontentamento dos portugueses com as instituições democráticas, incluindo os partidos políticos (sem ter feito qualquer distinção), como um grande fator de instabilidade. Um descontentamento, resultante da desesperança dos cidadãos perante a indistinção entre os partidos políticos que têm tido, até ao momento, responsabilidades governativas, mas que será contrariado, segundo o Presidente da República, se for estabelecido um compromisso claro para continuar a sujeitar o país ao processo de empobrecimento em curso, da autoria deste Governo e de quem, mesmo na oposição, tem defendido aquilo que parece ser um empobrecimento moderado como uma verdadeira alternativa. Todavia, o Presidente da República ignora (ou faz por ignorar) que é essa pretensa fatalidade na escolha, exclusiva, entre estas duas formas de empobrecimento, que tanto desespera os portugueses e descredibiliza as instituições democráticas.
Neste seu discurso ao país, o Presidente da República reforçou, novamente, a necessidade de o país aumentar os níveis de crescimento económico e de emprego, mas continua acorrentado às mesmas políticas que nos trouxeram o decrescimento económico e, por consequência, o desemprego.
Na sua mensagem paternalista aos cidadãos, tratados como súbditos, fruto de uma postura muito usual e (re)conhecida, que o marca como o político de carreira que é, o Presidente da República começou por afirmar, com uma imensa convicção, que numa República ninguém está acima da Lei, julgo que decerto incluirá a Constituição no cumprimento dessa Lei. E que o respeito pela Constituição não contempla exceções. Logo, não serão aceitáveis quaisquer tentativas de colocar os ditames da troika ou de qualquer Tratado Orçamental, acima do cumprimento da Constituição, tal e qual como começa a ser defendido por alguns paladinos do senso comum e da alegada maturidade democrática e governativa, que de tanta maturidade cairão, um dia, de podridão, não fosse essa uma lógica completamente anti-democrática, pois é contrária à vontade popular, expressa nas eleições para a Assembleia Constituinte, por sinal, a eleição mais participada de sempre, como bem relembrou o Presidente da República no seu discurso.
Fiquei com a impressão que os conselhos do Presidente da República não são, afinal, assumidos pelo próprio, outrora a principal figura do partido político que faz parte do trio da desesperança, sem políticas alternativas, sem um outro futuro para oferecer aos portugueses que não o da austeridade, da fatalidade do empobrecimento e forçado ao incumprimento de promessas eleitorais que tanto afasta os cidadãos das urnas de voto e que descredibilizam as instituições democráticas.