Os contorcionistas e a geringonça

Depois de uma pré-campanha intensa, de estarmos a atravessar a última semana de uma campanha frenética em sondagens e em «contagem de espingardas» que desmobilizam os eleitores, incentivam a abstenção, menorizam a política e incentivam à bipolarização e ao voto útil, vale a pena refletir sobre aquelas que são as opções tidas como únicas, sempre espartilhadas pelo interesse dos mercados que se sobrepõe à democracia.

O PS continua muito longe de surpreender, não tem coragem de ir buscar dinheiro a quem tem beneficiado do roubo que atingiu os trabalhadores e pensionistas. Para disfarçar, ou fazer de conta que é de esquerda, anuncia um corte na TSU para aumentar o rendimento disponível das famílias, o que não é mais do que retirar rendimento indireto às famílias para o transformar em rendimento direto. Ou, ainda por outras palavras: fazer com que o trabalhador peça emprestado ao pensionista.

O programa do PS é como uma geringonça que ilude os eleitores e que ao tapar os pés, destapa a cabeça do trabalhador que continua à mercê dos apetites dos mercados. A geringonça propõe-se a transformar o parque habitacional, ao promover o investimento na reabilitação urbana. Um investimento necessário e reprodutivo, capaz de alavancar o setor da construção civil. Contudo, a geringonça recorre às poupanças, de último recurso, dos pensionistas, o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social – uma reserva que garante o pagamento de pensões durante, pelo menos 2 anos – para investir na reabilitação urbana.

Aumentar o rendimento das famílias e o investimento na reabilitação urbana são medidas e objetivos necessários para dinamizar a economia, mas não é inevitável que se faça à custa do empenhamento das pensões.

Os açorianos sabem, mais do que ninguém, o que é ser governado por um governo do PS. Confiar o voto no PS, numa Região que vive uma grave crise económico-social, com uma elevada taxa de desemprego, com uma crescente rede de clientelismo e uma cedência gradual a uma onda privatizadora, só pode ser um sinal de conformismo e de que melhor é impossível.

Temos, por cá, os candidatos do CDS que tudo fazem para se descolarem do PSD e do seu próprio partido na República. Mas impõe-se uma simples questão. Se o CDS conseguir eleger, pelo menos, um deputado, pelos Açores, em que bancada parlamentar estará esse deputado na Assembleia da República? Justamente, na bancada parlamentar que apoiará um governo PSD/CDS, caso vença as eleições.

Sabemos que o CDS/Açores apresou-se a descomprometer-se com o CDS, e promete que estará sempre ao lado dos açorianos. Mas será que se forem confrontados com a possibilidade de aumentar o salário mínimo nacional votarão contra, como se esse fosse uma medida que não afeta os Açores? Que dirão eventuais futuros eleitos do CDS/Açores, se se confirmar um corte de 600 milhões de euros nas pensões, já anunciado pela deputada do CDS, Cecília Meireles? Só mesmo Carlos César e os ingénuos acreditarão na «estória da carochinha» do CDS/Açores.

Não é por acaso que Ulrich (presidente do BPI) não tem preferência entre PS, PSD e CDS, os únicos beneficiados pelo voto útil e pela abstenção como resposta para avaliar, pela negativa, quem governou e quem suportou essa governação na Assembleia da República. Ulrich conta com a alternância do poder e a passividade dos eleitores para continuar a colher os frutos da política do centrão. O voto no BE é um contributo para tornar a vida de Ulrich, e outros semelhantes, difícil e acabar com os sacrifícios de quem perdeu o seu emprego, viu-se forçado a aceitar um emprego precário e mal pago e dos pensionistas que perderam parte significativa da sua pensão.