Maria do Céu Patrão Patrão Neves, ex-eurodeputada eleita pelo PSD, não perdeu a oportunidade para, num dos seus artigos de opinião, tentar disseminar mais ‘veneno’ para dividir os povos europeus ao colocar portugueses contra gregos e, dessa forma, contrariar o espírito de solidariedade e subsidiariedade, princípios basilares da União Europeia.
Os argumentos de Maria do Céu Patrão Neves são falsos e assumem maior gravidade quando proferidos por alguém que conhece, ou teria obrigação de conhecer, a realidade das instituições europeias.
Maria do Céu Patrão Neves ao basear-se, conscientemente, em suposições e não em factos, participa, ativamente, na promoção da xenofobia contra o povo grego, como se alguém, nesta Europa, supostamente unida, tivesse legitimidade para condenar os povos à pobreza e à miséria.
Para Maria do Céu Patrão Neves é mais importante defender, com falácias e mentiras, as políticas de empobrecimento defendidas pelo PSD e CDS e a sua vassalagem ao Presidente da República do que defender os povos europeus.
Maria do Céu Patrão Neves nem consegue deturpar ou distorcer os factos, pois estes falam por si. E sente necessidade de desinformar a opinião pública ao espalhar, deliberadamente, o preconceito. Não acredito que desconheça o empenho dos anteriores governos gregos para seguirem a receita da troika, através da adoção de medidas discricionárias para reduzir o défice público, as quais resultaram numa retração do PIB duas vezes maior, comparativamente ao verificado em Portugal (30% do PIB contra 15% respetivamente) e na redução do saldo estrutural na Grécia que duplicou o saldo atingido pelo nosso país (12% e 6%). Estes são dados da Comissão Europeia, motivo para que não acredite no desconhecimento da ex-eurodeputada.
Segundo a OCDE, a Grécia tem sido excecional no cumprimento da aplicação das recomendações, as tais reformas estruturais. Assim, e por ter sido uma tão excelsa aluna, característica que não tem sido exclusiva do nosso país, o PIB grego recuou 25% durante a crise e o desemprego chegou aos 30%. E lá, na Grécia, tal como no nosso país, tais reformas só serviram para aumentar a dívida pública. É o que acontece se os limites aos défices orçamentais e a recapitalização da banca forem encarados como dogmas. E para que não restem dúvidas, ainda segundo a OCDE, enquanto Portugal e a Irlanda cumpriram menos de metade das reformas estruturais que levaram os seus povos à pobreza e à miséria, a Grécia cumpriu 75% dessas reformas. Assim, não admira que se viva uma crise humanitária.
Para a ex-eurodeputada, tudo vale para mostrar apoio, sem qualquer sentido crítico ao Presidente da República numa lógica de ‘Deus no céu e Cavaco na Terra’, à qual acrescenta, ‘e o povo no purgatório’. E neste contexto, o povo seria tanto o grego como o português, ou inclusive o alemão, pois a crise na eurozona não assenta na diferença entre ‘Nós’, portugueses, e os ‘outros’, neste caso, ‘os gregos’, mas sim entre ‘os de cima’ e ‘os de baixo’.
O Presidente da República, tão idolatrado pela ex-eurodeputada, tem uma visão estreita quando se trata de defender os interesses do seu povo, não fosse o empréstimo que o país concedeu à Grécia muito inferior àquilo que o país poderá ganhar com uma mudança de políticas, de âmbito europeu, em que deveríamos fazer parte de uma frente comum para substituir uma estratégia que não tem tido qualquer sucesso na resolução da crise da eurozona. Aliás, o Presidente da República tem sempre uma visão mais alargada quando se trata de defender os interesses dos ‘de cima’, até porque o dinheiro que o nosso país emprestou à Grécia e cujo reembolso (com os devidos juros) o preocupa é cinco vezes superior aos valores do desvario do BPN, instituição bancária, na qual circulavam pessoas, outrora, muito próximas do seu círculo de amizades.
É pena a memória de Maria do Céu Patrão Neves ser tão seletiva, ao ponto de se esquecer que este é o mesmo Presidente da República que, em tempos, foi até bastante enfático em reconhecer que ‘há limites ao sacrifício que se pode pedir às pessoas’, nesse sentido e considerando os sacrifícios exigidos aos povos europeus e, sobretudo, ao povo grego, também é compreensível que não se poderá pedir mais ao povo português.
Maria do Céu Patrão Neves, assim como muitos da sua ala ideológica, proclama que o nosso país está melhor. Que é agora que tudo começará a mudar e que os resultados ilustram uma mudança resultante das suas políticas. Regozijam com uma alegada redução na taxa de desemprego, mas escondem que essa oscilação entre os 13% e os 15% de 2014 para 2015 é resultado da única solução que apresentaram aos jovens desempregados, ou seja, que emigrassem. E estão muito contentes, porque podem demonstrar à Europa da elite financeira que Portugal continua a ter um dos salários mínimos mais baixos e que o número de portugueses que o auferem triplicou, desde o início da crise, como se fosse um sinal de racionalidade financeira em comparação com o alegado desvario perpetrado pelo novo governo grego que decidiu repor o antigo salário mínimo de 700 euros.
Maria do Céu Patrão Neves apela à responsabilidade, mas parece-me que a sua noção de responsabilidade é culpar os portugueses e os gregos por terem vivido na pobreza, quando tinham de viver consoante as suas miseráveis possibilidades. Enfim, caiu-lhe a máscara. Afinal, o tal projeto europeu que defendem não é mais do que a perpetuação e o agravamento das desigualdades e da transferência de rendimentos do trabalho para a economia de casino.