Os deuses nos ofertaram uma força da natureza

Como se começa a escrever um artigo de homenagem a alguém? Já há dois dias que sabia que estavas para nos deixar. Custa saber que aquelas pessoas que admiramos se vão embora. Esta doença que te levou... essa doença que alimenta uma industria, foi decidir, justamente, levar-te, a pessoa que mais lutou pela dignidade na hora da morte.

Neste dia em que escrevo estas linhas, a lei do direito à eutanásia ainda não foi aprovada. Espera-se que seja nesta legislatura - e seria bom que tivesse o teu nome para nos lembrarmos que optar pelo direito à morte assistida não é  um acto de covardia, e muito menos um acto de suicídio. É antes dizer: aceito que é chegada a hora de partir e quero poder fazer isso, com dignidade e deixando amor.

Sim, amor! Acho que é a palavra que define o que fizeste por esta região autónoma. Vejo tantos que se dizem Açorianos, que envergam insígnias e poder, mas que apenas sabem agigantar-se nas costas das Açorianas e Açorianos que querem viver nestas ilhas, com dignidade e justiça; que acreditam que estas ilhas são uma dádiva à humanidade e não apenas a meia dúzia de reis. 

Força! Acho que é a outra palavra que te define.

Não sei recordar em concreto quando foi a primeira vez que que te vi defender os Açores. Sei que foi na TV, seguramente em alguma campanha eleitoral, onde, com o teu sorriso, cativavas as pessoas que se acercavam de ti.

Estou aqui sentado a escrever estas linhas e abro o livro de Kierkergaard “Temor e Tremor” que um dia me aconselhaste a ler, e encontro esta passagem: «Reconhecem-se bem os cavaleiros da resignação infinita: caminham com passo elástico e audaz». Pois é isso mesmo… a audácia que tiveste em fazer crescer este sonho de uma sociedade utópica, mais justa, mais democrática, mais inclusiva e tolerante, foi algo que me cativou e, acredito, tantas e tantos outros açorianos.

Depois desse episódio ainda demorei algum tempo até me juntar ao Bloco de Esquerda, mas quando me acolheste, de braços abertos, um estranho (sem o olhar desconfiado que tantas vejo em tantos lugares onde entro), na nossa  antiga sede, apertadinha, em que tínhamos que fazer das tripas coração para acomodar todos os camaradas, senti que o bloco é mesmo isto: aceitar as pessoas de braços abertos, sem olhares de desconfiança; tantas e tantos Açorianos que optam por ficar a trabalhar por esta justiça social, que não se resignam ao velho discurso: é assim, porque sempre foi assim.

Agora que temos uma nova sede, maior e preparada para receber estas e outros açorianos, parece que (subitamente) houve um surto de emigração. A nossa sede vai ficar ainda mais vazia sem ti.

É curioso que enquanto me dirigia para este lugar, onde gosto de apreciar um café e umas páginas de um livro, cruzei-me no passeio com uma pessoa invisual. Vinha já pensando no que poderia escrever nestas linhas, mas foi então que me dei conta no quanto há ainda a fazer nestas nossas ilhas para que ninguém fique para trás, esquecido, sem dignidade e direitos.

Todos os dias, injustiças são cometidas. Todos os dias os desafios se agigantam. Todos os dias, a utopia do amor e da paz estão em perigo, porque os ignóbeis se alimentam da fraqueza e da divisão da sociedade, disseminando discurso de intolerância e medo. Todos os dias, o egocentrismo vai destruindo o humanismo e o amor. Todos os dias, a falta de amor, conduz o homem para o abismo da intolerância, cujos resultados já vimos no passado.

Acho que é por isso que fiquei quando era mais fácil emigrar. Sim camarada, lembraste-me que o amor por estas ilhas tem muitas formas de se exprimir. Seja na poesia, ou na luta política, aqui estarei sempre a dar o meu contributo pela união, pelo amor e pela paz.

Até sempre camarada. Obrigado nunca será suficiente!