Parar para conversar

Há dias aconteceu algo raro: um grupo de cidadãos ficou a discutir o futuro da Baía de Porto Pim no Auditório da Biblioteca até às dez da noite. Sem pressa. Sem vencedores. Pessoas diferentes, ideias diferentes, preocupações reais. No fim, não houve uma solução mágica. Houve algo melhor: conclusões construídas em conjunto.

Parece pouco. Mas não é.

A democracia nasceu assim: pessoas reunidas a conversar. Na Grécia antiga, e em muitas das antigas tribos, cidadãos juntavam-se para discutir caminhos. Havia confronto de ideias, argumentação, escuta. A democracia começou assim, como prática coletiva de pensamento.

Hoje vivemos sem tempo. Sempre a correr. Se o trânsito para dez segundos, vamos ao telemóvel. Se há silêncio, vamos ao telemóvel. Não suportamos a pausa e amamos o nosso algoritmo. Se aparece um jogador novo no nosso clube é um herói, se é no do adversário é um arruaceiro. Falta cultura crítica, no futebol e na política.

Cultura não é só concertos e exposições. Cultura é a forma como decidimos. É a forma como ouvimos. É a capacidade de duvidar antes de aceitar. Uma cidade sem tempo para conversar é uma cidade que empobrece, mesmo que tenha agenda cheia.

Hoje discute-se menos e reage-se mais. Escolhem-se lados como quem escolhe clubes. O que dá mais votos e o que pode dar mais dinheiro passa à frente do que der mais futuro. Escutar e pensar cansa. Mas é aí que nasce a inteligência coletiva. E é isso que os nossos filhos estão a aprender, ou a desaprender, connosco. Se nos veem sempre apressados, sempre colados ao ecrã, sempre prontos a opinar sem ouvir, essa será a cultura que herdam.

Em Braga decidiram criar o Muzeu. Não é apenas mais um espaço cultural. A proposta cruza arte, pensamento e participação cívica. A missão, segundo os promotores, centra-se na promoção do pensamento crítico e do envolvimento social. Criam conteúdos próprios, relacionam obras com temas atuais, ligam experiências individuais a debates coletivos. É uma infraestrutura de reflexão. Um lugar onde a cultura não serve para distrair, mas para envolver.

Isto devia interessar-nos. Porque mostra que investir em cultura não é luxo. É criar condições para que as pessoas pensem melhor e decidam melhor. É dar tempo e espaço ao debate antes da obra. É perceber que a participação não atrasa processos, melhora-os.

Foi por isso que surgiu a petição contra o avanço do estudo prévio feito pela Consulmar para o Porto Pim, para melhorar o processo, porque não existem soluções mágicas. Não se compram prontas. E muito menos se resolvem apenas em betão. Antes de desenhar barreiras novas, temos de verificar o que nos defende actualmente do mar, e como pode defender melhor. Como funciona a baía. Que equilíbrio queremos entre proteção, paisagem e sustentabilidade. O que podemos melhorar sem destruir o que nos protege.

A defesa do mar é uma questão técnica, claro. Mas é também uma questão cultural. Depende da forma como pensamos o território. Da forma como ouvimos especialistas e moradores. Da forma como decidimos em conjunto.

A Baía de Porto Pim merece esse tempo. A Horta também. Se queremos uma cidade aberta, precisamos de cultivar esta prática simples e exigente: parar, conversar, pensar. Porque o futuro não se improvisa nem se despeja em cimento. Constrói-se devagar, com muitas cabeças, e com a coragem de fazer perguntas antes de fechar respostas.