O fórum prepara-se para alternar os assentos. A casa da democracia está em vias de ser governada por uma caranguejola que se arrisca a conduzir a região autonomia dos açores ao retrocesso.
Se 24 anos de governo do PS levaram a um desgaste no poder governativo, o cenário que se apresenta agora,com o acordo entre PSD, CDS e PPM, e com apoio da Iniciativa Liberal e do partido anti democrático, Chega, é o o perigo de um retrocesso nos direitos das açorianas e açorianos, que se nos apresenta agora.
Perante este cenário a autonomia pode estar em risco (ou, pelo menos, muito fragilizada), pois já há sinais de Ventura a dizer que a última palavra é sua, o que não é de espantar, tratando-se de um partido nacionalista, sem muito interesse pela autonomia dos Açores.
Às custas da ganância de poder do PSD, é o esforço de tantas açorianas e açorianos, esforço que vem desde os finais do Século XIX, que está agora em suspenso. Mas o mais preocupante é constatar que um partido, que se diz democrático e que tem na sua base ideológica a social democracia, por sede de poder, abriu a porta a que o fascismo ganhe ainda mais força.
O que vão ser os próximos quatro anos? Como é que se vai melhorar as dificuldades e os desafios que a região enfrenta. É que se já é um cenário de atraso, aquele a que assistimos, não se auguram boas perspectivas face aos desafios que se nos apresentam: alterações climáticas, a pandemia de COVID-19, os baixos níveis de escolaridade, os altos níveis de pobreza.
Face a isto, teremos ainda mais uma dose de austeridade? Quem se recorda da governação da coligação PSD/CDS e dos resultados nefastos para a área da saúde, da educação e da justiça? E a cultura? Continuará o parente pobre da sociedade? Quem se recorda o que foi que representou a clara falta de aposta desse governo PSD/CDS nessa área?
É importante que não se fomente o ódio e o negacionismo face ás alterações climáticas. É importante que não se retorcesse nos direitos dos trabalhadores, nos direitos das mulheres, das minorias e no bem estar animal.
Como se poderá criar uma consciência de autonomia? Parece ser este agora o grande desafio. É urgente criar um sentido de unidade que nos permita manter a nossa autonomia. Não podemos permitir que o poder esteja totalitariamente centrado numa pessoa, como quer Ventura. É importante fortalecer a nossa auto-determinação administrativa, pois só quem vive nas ilhas, sabe o que significa passar pelas tribulações inerentes ao distanciamento geográfico do continente português.
É importante desconstruir o saudosismo do período pré 25 de Abril. É importante trabalhar em prol das diferenças e da afirmação dessas diferenças, pois o todo do país só enriquece com a variedade cultural que o compõe.
Temos pela frente quatro anos para defender a democracia, a autonomia e os direitos humanos. Há luz ao fundo do túnel. Nem toda a noite é eterna. É preciso fazer diferente. É importante reflectir sobre tudo o que está acontecendo. É importante motivar as pessoas para que se sintam mais próximas da política. Há ainda muito por fazer e cada um de nós tem poder para isso. É importante que cada pessoa se possa sentir capaz de ser agente de mudança. É importante que a noção de que os políticos são corruptos se esvaia na neblina. É importante desconstruir esse argumento. Precisamos - mais do que nunca - de gente capaz e com vontade de agir para as pessoas e cativa-las a agir por si em prol de todos. Acima de tudo é importante desconstruir o egocentrismo da sociedade. Temos que nos unir em prol do futuro, pois existem sempre desafios a superar e é estando juntos que seremos sempre mais fortes para ultrapassar esses desafios.
E porque a poesia traz alguma luz face à escuridão, que este poema de Miguel Torga possa ser fonte de inspiração:
Sátira
Disse então aos tiranos:
Que pequena e mesquinha humanidade
A vossa!
Horas, dias e anos
De crueldade,
Para que ninguém possa
Gritar que passais nus pela cidade!
* Tito Fontes assina como Miguel Teixeira de Andrade